A crise econômica americana pelo olhar de uma prostituta

Steven Soderbergh analisa a relação dos negócios com o erotismo em 'Confissões de Uma Garota de Programa'

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de São Paulo,

14 de agosto de 2009 | 12h00

Após um épico de 4h30 sobre Che Guevara, dividido em duas partes, Steven Soderbergh volta-se para um projeto pequeno, tendo por personagem uma jovem prostituta de Manhattan. Trata-se de "Confissões de Uma Garota de Programa", filme modesto, de baixo orçamento e resumido em meros 77 minutos.

 

Veja também:

Trailer de 'Confissões de uma Garota de Programa'

 

O título em português talvez tente apimentar uma história que nada tem de apelativa - no original, chama-se "The Girlfriend Experience". Ela se passa durante a eleição presidencial que levou Obama ao poder contra McCain e, claro, em meio à crise econômica nos EUA, que então se desenhava de maneira catastrófica. Estamos no epicentro do capitalismo e Soderbergh monta o seu posto de observação a partir do olhar dessa garota que tem gente de Wall Street e em outras esferas do poder econômico entre seus clientes.

 

Mas também seria demais enxergar nesse filme rápido, de tom urgente, uma "análise" sociológica de um momento particular do século 21 - o do naufrágio das ideias neoliberais. No fundo, tudo, antes, durante e depois da crise, continua acontecendo como sempre, apenas, quem sabe, com os homens mais inseguros e buscando, na call girl de luxo, essa gueixa moderna, algo além do sexo - talvez um pouco do afeto que não tenha em casa, ou algum tipo de consolo maternal, ou mesmo algum tipo difuso de calor humano. A garota, Chelsea (interpretada pela atriz pornô Sasha Grey) também tem lá os seus problemas, apesar de o namorado (Chris Santos) não se importar, em aparência, com o métier dela. Mas sempre existem conflitos nesse tipo de situação, por mais que os parceiros sejam liberais. Ou profissionais. Sexo é sexo, e não é como beber um copo d'água.

 

O que pode incomodar um pouco no filme é o tom distanciado escolhido por Soderbergh. É algo desenhado não apenas pela trama, mas também pelo tipo de atuação do elenco e pela própria maneira como os atores são filmados. É como se a câmera explicitamente os observasse, sem entrar no jogo da representação, colocando-os em perspectiva, de maneira fria, quase entomológica. A única maneira de curtir o filme é embarcar nessa proposta, respeitando-a como escolha do diretor.

 

Chelsea aparece como a mais desenvolta das criaturas, exerce sua profissão como faria com outra qualquer, com toda a naturalidade e dignidade. Mas essa frieza de relacionamentos também tem seu preço a cobrar, mesmo que ela assuma seu papel como "atriz" enquanto encontra seus clientes, isto é, como uma tela em branco para projeção de fantasias masculinas.

 

Mesmo assim, a impressão é que Soderbergh poderia ter ido mais longe, e mais fundo, em tudo que se propôs observar, não fosse a pressa em captar um determinado momento e a partir de uma ótica singular, a da garota de programa. Mesmo assim, o filme, apesar de muito distanciado, tem por vezes o tom cativante de um depoimento, de um diário, de uma experiência relatada. Uma depuração maior, um aprofundamento dos personagens, inclusive dos clientes, poderia redundar num retrato mais nuançado e completo dessa ciranda sexual.

 

Nela se inclui o erotismo mas, acima de tudo, envolve uma questão monetária, como costuma acontecer. O interesse e os negócios mandam, tanto de um lado do balcão como de outro. Vale para Chelsea, a garota de US$ 2 mil a hora; vale para os executivos que podem pagar pelo serviço. Uma relação de troca mercantil, tão velha como a humanidade, mas que, aqui e agora, parece se revestir de outra tonalidade e assumir outra natureza, ainda mais mecânica e impessoal.

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