"A Cor do Paraíso", um iraniano imperdível

Mesmo que já exista um certocansaço do cinema iraniano, A Cor do Paraíso podetranqüilamente ser apontado com um dos (poucos) filmesimperdíveis em cartaz. No entanto, a sinopse em nada odistinguiria de um reles melodrama lacrimogêneo, sem nenhumaconsistência. A história proposta pelo diretor Majid Majidi (deFilhos do Paraíso) é a de um garotinho cego, rejeitado pelopai e que só quer um pouco de amor e compreensão dos outros.Apenas isso. Mohammad é o nome do moleque, ele freqüenta a escola, lêe escreve em braile, e é criado pelo pai viúvo. Moram em Teerã,mas o resto da família - avó e as irmãs de Mohammad - vivem nocampo. Vão para lá passar as férias. O pai do garoto quer voltara se casar, mas o filho é um estorvo. Quer livrar-se dele e ojeito é levá-lo a um carpinteiro, também cego, para que aprendao ofício. O filme, até certo ponto, segue o padrão iraniano típico, com a narrativa filtrada pelo viés de uma criança, já que nocaso seria cruel empregar a palavra olhar ou ótica. Crianças dãobons narradores, como são os casos de Balão Branco, de JafarPanahi, ou Filhos do Paraíso, do próprio Majidi. Num caso,você tem a cidade ameaçadora, vista pela perspectiva de umagarotinha que quer comprar um peixe vermelho. No outro, umgaroto perde os sapatos e propõe dividir o uso de um par detênis com a irmã para que o pai não perceba. Além do ponto de vista infantil, há nesse novo cinemairaniano a prevalência de uma radical simplicidade. É como se,decorridos mais de cem anos da invenção dos Lumières, o cinemativesse, lá no Irã, redescoberto a virtude da singeleza, dodespojamento de meios e propósitos. Claro que, como tudo na vida, isso também se tornou fórmula, vários filmes exploraram esseveio, vindo daí o cansaço e a sensação de mesmice. Mesmo assim, é exemplar, no cinema iraniano, essavocação de ir ao simples para atingir o essencial. Essadepuração, quando bem conduzida, atinge o sublime, comprovamfilmes como O Gosto de Cereja ou Gabbeh. Ir aoessencial? Bem, quando o cinema do Irã começou a despontar nomundo ocidental, falou-se em revival do neo-realismo italiano. Aaproximação parecia automática porque tanto em um como em outro,usa-se muito o trabalho de atores não-profissionais. No entanto, talvez essa não seja a característica maismarcante do neo-realismo - mesmo porque atores e atrizesconhecidos trabalharam nesses filmes, como é o caso de AnnaMagnani, inesquecível em Roma, Cidade Aberta, obra-prima deRoberto Rossellini. O neo-realismo era um cinema despojado, degrande conteúdo social, e que tinha a característica de ir aoessencial, em cada momento. Pense em Ladrões de Bicicletas,de Vittorio De Sica. Nele, o fundamental é a discussão sobre odesemprego. O pai perde seu instrumento de trabalho e sem elenão pode sobreviver. A seco, o filme é isso. Mas se fosse só isso não seria a obra-prima que é.Permanece, na memória do espectador, não apenas uma idéiacentral - a de que o trabalho deve ser um direito do indivíduo,não uma concessão da sociedade -, mas a sutil relação entre pai efilho. Quem esquecerá jamais a magia dessa dupla - LambertoMaggiorano e Enzo Staiola, pai e filho _ deslocando-se por umaRoma devastada no pós-guerra? E quem esquecerá o momento em quepai e filho se dão as mãos, unindo-se num momento de humilhaçãoe dor? É nesse instante que o político e o emocional sesobrepõem, e constituem a liga duradoura desse grande filme. Há alguma coisa disso em A Cor do Paraíso, embora ofundo social não entre com a mesma clareza. Aliás, esse fundo écompreensivelmente sempre difuso no cinema do Irã. Raramente ascríticas e reivindicações aparecem sem disfarce nessa sociedadeainda autoritária - O Círculo, de Babak Payami sendo a notávelexceção ao mostrar sem disfarces a opressão da mulher nasociedade iraniana. Venceu o Festival de Veneza e foi censuradoem seu país. De qualquer forma, o ambiente em torno da trama de Cordo Paraíso é o de sempre nesses filmes. Vê-se uma vida difícil, uma pobreza digna. A tendência é sempre deslocar a ação dacidade para o campo. Se o social fica entre parênteses, é arelação com a figura paterna que sobressai. Uma relaçãodilacerada, pois trata-se de um pai que renega o filho, ao mesmotempo em que o ama. Sentimentos assim contraditórios podemconviver na mesma pessoa? Todo mundo sabe que sim, sendo que sóno cinema americano as pessoas são unidimensionais. E, do outrolado, há um filho que demanda amor, e maldiz sua condição. Pode parecer estranho que nesta sociedade teocrática emuçulmana apareça esse filme de fundo tão cristão. Pai e filhorepetem a parábola de Jó e perguntam a Deus por que foramamaldiçoados. São desesperos simétricos: o pai se pergunta o quefez para merecer o fardo de ter um filho cego para criar. Ofilho se pergunta por que veio ao mundo daquele jeito e nãoacredita quando seu professor lhe diz que Deus ama mais oscegos. Ambos interpelam o destino e este - por definição - nãoresponde. Isso posto, como o filme trata no fundo do grandeimpasse teológico - por que Deus, que é bom, permite que tantosofrimento recaia sobre suas criaturas? - não é de se estranharque tudo termine com uma ressurreição, talvez uma citaçãoexplícita de A Palavra, o imenso filme cristão de CarlDreyer. Diga-se o que se quiser, mas é lindo de morrer.Serviço - A Cor do Paraíso (Rang-e Khoda) - Drama. Direção deMajid Majidi. Irã/99. Dur. 88 min. Top Cine 2, às 15h30, 17h30,19h30 e 21h30. Livre

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