"A Copa" contrapõe futebol e budismo

Por mais bonitos que, eventualmente fossem, os filmes de Martin Scorsese, Kundun, e Jean-Jacques Annaud, Sete Anos no Tibete, eram muito reverentes com a cultura religiosa tibetana. Era justamente o que o diretor Khyentse Norbu, do Butão, queria evitar em A Copa. Pela primeira vez, em março deste ano, uma produção do Butão foi indicada para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Se você acha isso surpreendente além da conta vai se surpreender ainda mais ao descobrir que o filme é bom.Mas como em O Vento nos Levará e O Buraco, as outras estréias importantes desta sexta-feira, será preciso que, ao aproximar-se desse filme, o espectador se distancie dos códigos de comunicação impostos por Hollywood ao público de todo o mundo. A Copa parte de uma interrogação que não deixa de ser fascinante, em especial num País como o Brasil, que cultiva, um tanto imerecidamente, nos últimos tempos, o mito de terra do futebol. Norbu, cineasta butanês de 41 anos, descendente de lamas, quer saber qual é a diferença entre o futebol e o budismo.Para isso conta a história de dois meninos tibetanos num monastério localizado no Himalaia. Apaixonados por futebol, mas presos à rígida disciplina daquele centro de budismo, os garotos vivem fugindo e provocam uma grande confusão ao tentar assistir à partida final da Copa do Mundo de 1998, na França. Norbu conta que fez o filme movido pelo desejo de ajudar Hollywood a livrar-se da idéia de que os tibetanos (ou os budistas) são todos sábios místicos. "No Ocidente, todos pensam que os monges são pessoas totalmente devotadas e disciplinadas, esquecendo-se de que são humanos; é preciso dar um basta nessa idéia romântica que termina afastando as pessoas da vida espiritual."O futebol serve, assim, para uma discussão sobre o que é o budismo. Há várias parábolas que vão sendo construídas ao longo das cenas para ilustrar essa conversa, mas a chave do filme é mesmo o incidente do desfecho, que marca uma ruptura e um anticlímax para o espectador ocidental. É aí que Norbu deixa claro o que quer dizer sobre budismo, pelas vias do futebol e do cinema. O fim não é o mais importante. Mas para aceitar isso o espectador precisa viajar na singeleza e encantamento desse filme que se recusa a ser conclusivo. A Copa (The Cup) - Drama. Direção de Khyentse Norbu. Austrália-Butão/99. Duração: 94 minutos. Livre.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.