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A convidada principal desta edição do Festival de Cannes é a guerra

Conflitos são o tema principal de ao menos sete longas exibidos no evento

22 de maio de 2014 | 20h20

O festival de Cannes fez as coisas direito. Logo na abertura, já estava preparado um escândalo para consumo do público em geral, um escândalo daqueles, rico, chique, um escândalo de luxo, que diz respeito ao jet set, isto é, à família dos príncipes de Mônaco, que se retirou ofendida do festival, como fez Aquiles durante a Guerra de Troia, preferindo confinar-se em suas propriedades enquanto o público do festival assistia, a alguns quilômetros dali, ao filme Grace: A Princesa de Mônaco, estrelado pela sublime Nicole Kidman.

Um único escândalo para um festival inteiro é ainda pouco. Evidentemente, pode-se sempre contar com escândalos espontâneos e imprevisíveis. Mas, por precaução, no caso de tudo correr perfeitamente, foi programado um segundo escândalo. E neste caso, nada foi poupado.

O filme de Abel Ferrara, Welcome to New York, baseia-se numa história verídica, ocorrida recentemente, cujo herói é um homem que hoje poderia ser o presidente da República francesa, Dominique Strauss-Kahn (chamado D.S.K.), se, um belo dia, não tivesse sido surpreendido num quarto de hotel em Nova York, numa situação extremamente escabrosa com uma camareira chamada Nafissatou Diallo. Por dez minutos de êxtase, DSK precipitou-se no inferno, foi julgado e atirado ao sarcasmo do mundo inteiro.

Para encarnar DSK, Ferrara escolheu Gérard Depardieu, o maior ator francês, o maior porque, de tanto comer e beber, Depardieu se tornou monumental. E também propenso a dar escândalos. Há dois anos, declarando que havia impostos demais na França, mudou-se para a Rússia, onde cobre de elogios seu amigo Vladimir Putin.

Mas o charme do festival de Cannes é seu gosto pelo paradoxo. Este ano, a organização se superou: enquanto os telespectadores não perdem o desfile de estrelas em suntuosos trajes, bordados de pedrarias, com brilhantes do tamanho do Ritz, e de seres quase irreais exibindo-se no tapete vermelho, o programa, como costuma acontecer, é um tanto austero e, até mesmo trágico.

Todos puderam constatá-lo: o convidado principal de 2014 não é nem Nicole Kidman, nem DSK nem mesmo Depardieu, e tampouco Grace Kelly. É a guerra. Sem pretender esgotar o assunto, bastará enumerar algumas dessas guerras: a Chechênia inspirou The Search, de Michel Hazanavivius, a Ucrânia (Maidan, de Sergei Loznitsa), a Síria evidentemente (Eau Argentée, de Ossama Mohammed), o Mali (Timbuktu, de Aberrahmane Sissako), a Costa do Marfim (Run, de Philippe Lacôte), o Iraque (L'Iraque et la Guerre, de Laurent Becue-Renard), a Bósnia (Les Ponts de Sarajevo, de um coletivo).

Esta avalanche de conflitos seguramente inspirará inúmeros filósofos e intelectuais de alto nível que nos explicarão os vínculos incestuosos entre a guerra e o cinema, desde o grande ciclo dos faroestes, dos filmes ambientados na Antiguidade grega e latina, ou o das revoltas coloniais, até as carnificinas de 1914 e 1939.

O filósofo americano Francis Fukuyama, depois que Bush-pai ganhou a guerra do Iraque, declarou ao mundo estupefato que tínhamos chegado ao "fim da História" prenunciado pelo filósofo alemão Hegel em 1806, pois a "pax americana" chegara finalmente à terra. Dez anos mais tarde, o anúncio de Fukuyama foi jogado às traças quando Bush-filho, Geroge W.

Bush fez a sua guerra do Iraque, enquanto os conflitos mundiais se espalhavam, crescendo em intensidade, em horror e em derramamento de sangue.

À sua maneira, o festival de Cannes deste ano constata que a história, longe de se acalmar, tende a se exacerbar e que as guerras se multiplicam. A única inovação é que adquirimos o hábito de tirar dois exemplares de cada uma delas. A primeira versão é a guerra de verdade, com mortes e suplícios ao vivo, e a segunda, em cores, reconstituída, frequentemente sublime aliás, sobre as areias douradas da baía de Cannes.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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