A cinebiografia de Yves Saint Laurent por Jalil Lespert é a primeira de duas abordagens sobre o célebre estilista

Longa até possui qualidades de produção, mas falta ser viceral

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2014 | 20h17

E a moda das biografias segue forte no cinema francês. Depois do sucesso internacional de Piaf – Hino ao Amor – e de Coluche, Serge Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres e as duas versões da história de Coco Chanel –, chega a vez de Yves Saint Laurent. O estilista que revolucionou a moda e a elevou à categoria de obra de arte também ganhou duas versões de sua vida. A que leva todo o seu nome estreou ontem nos cinemas, depois de integrar a programação do Festival Varilux do Cinema Francês. O diretor argelino/francês Jalil Lespert veio mostrar seu filme no País. A outra versão se chama somente Saint Laurent e acaba de ser selecionada para a competição do Festival de Cannes, em maio. O diretor é Bertrand Bonello.

O Pornógrafo, Tirésia, L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância: Bonello tem sido um habitué na competição de Cannes. Com o primeiro, ganhou o prêmio da crítica. Com o terceiro, só um júri cego deixou de atribuir-lhe algum grande prêmio. Bonello tem sido o poeta maldito da sexualidade exasperada ou doentia na tela. Agradam-lhe as ligações perigosas, destrutivas, perversas. A se julgar pela amostra do Saint Laurent de Jalil Lespert, ele deve ter encontrado novo material ‘troublant’, perturbador, como dizem os franceses.

No Rio, em conversa com o repórter, Lespert disse que sua grande preocupação foi não moralizar. Seu filme se centra na ligação de Yves com Pierre Bergé. O jovem Yves é talentoso, um gênio. Bergé percebe isso e trata de isolá-lo. Ele faz isso um pouco por proteção, mas também por posse. Chega a ir para a cama com uma modelo e amiga do amante, e depois lhe conta os detalhes, somente para descartá-la da vida dele. Yves é caprichoso, un enfant gaté. Rouba os amantes dos colegas estilistas, viaja nas drogas. Bergé, como um trator, e fazendo o que é preciso, consegue proteger Saint Laurent do mundo, mas não dele mesmo. Ninguém é mais inimigo de Saint Laurent que o próprio.

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Com base no roteiro escrito por Jacques Fieschi, que também colaborou com Cyril Collard em Les Nuits Fauves, As Noites Felinas, Lespert alterna o luxo viscontiano dos palácios e dos desfiles – o filme tem um lado documentário muito interessante, ao mostrar como era a moda dos anos 1950 aos 70 – com cenas de caçadas noturnas ao homem. Nas sombras da noite, Saint Laurent busca amantes ocasionais sob as pontes do Sena. É o tipo do material que se presta às abordagens de Bertrand Bonello, que, muito provavelmente – por seu currículo –, deverá ir mais fundo no assunto. Ambos, Lespert e Bonello, de qualquer maneira tomam suas distâncias com o modelo mais chapa-branca e idealizado do documentário O Grande Amor de Yves Saint Laurent, de Pierre Thoreton, que tanto sucesso fez há alguns anos, com direito, inclusive, a tapete vermelho em Cannes.

O elenco de Lespert ajuda bastante. Ele deu os papéis principais a dois ‘pensionnaires’ (atores que integram o elenco fixo) da Comédie Française, Guillaume Galienne e Pierre Niney. Galienne virou o fenômeno do ano no cinema da França quando Eu, Mamãe e os Meninos recebeu, em fevereiro, o César, o Oscar francês. O filme inspira-se em experiências do próprio ator e diretor – Galienne foi criado como menina por uma família que o encarava como gay, o que ele não era nem queria ser. Galienne faz não apenas o jovem que foi como sua mãe (um travesti). O filme não é tão bom quanto promete. Paulo Gustavo não tem com o que se preocupar. Dona Hermínia continua imbatível em Mamãe É Uma Peça. Niney tem o physique du rôle e o temperamento de dândi afetado que serve a Saint Laurent.

Na França, o filme ultrapassou a marca de 1,7 milhão de espectadores, um sucesso de público que também foi bem acolhido pela crítica. Yves Saint Laurent não é ruim. Possui qualidades de produção e até realização. O que lhe falta é ser visceral como se espera que venha a ser o Saint Laurent de Bertrand Bonello.

YVES SAINT LAURENT

Direção: Jalil Lespert.

Gênero: Drama (França/2014, 101 minutos).

Classificação: 16 anos.

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