A China na Mostra, de Mao à globalização

La Cina È Vicina, A China EstáPróxima, anunciava em 1967 Marco Bellocchio em seu filme, marco do cinema político italiano, que passa nesta terça-feira na Mostra (às 19 horas, no Unibanco Arteplex 4). Naquele mesmo ano, na França, Jean-Luc Godard fez A Chinesa, antecipando, no ano seguinte, océlebre Maio dos que sonhavam com a revolução. Há vários filmesbons de ver e comentar, amanhã, no maior evento de cinema de SãoPaulo (Juventude em Marcha, de Pedro Costa; O Sol, deAlexander Sokúrov; Luzes na Escuridão, de Aki Kaurismaki;Amigo de Família, de Paolo Sorrentino), mas é interessantedebruçar-se sobre este verdadeiro caso chinês. Leon Cakoff gosta de lembrar o filme chinês que queriaexibir na 1.ª Mostra, em 1977, um curta-metragem que selecionoupor considerá-lo uma obra-prima do kitsch. Realizado em plenaRevolução Cultural, Brotos não tem crédito de direção. É umarealização coletiva de camaradas cineastas que filmam essascriancinhas, vestidas para uma festa da colheita e que cantam,sob uma macieira - ?Os frutos são mais doces sob o comando docamarada Mao?. Leon, ingenuamente, como diz, achou que aquiloera contrapropaganda, mas a censura do regime militar tomou aopé da letra o que era ridículo e proibiu Brotos, como obraperigosamente subversiva.Livro Vermelho de Mao Havia, nos anos 60, em todo o mundo, uma idealização daChina e do Livro Vermelho do camarada Mao, que era considerado aBíblia da Revolução (com maiúscula). Nós que amávamos arevolução, como diria mais tarde Ettore Scola no longa Nós QueNos Amávamos Tanto, de 1974. A verdadeira história daquelaidealização foi sendo recontada depois. Chen Kaige, como bomrevolucionário, viu impassível o próprio pai ser publicamentehumilhado pelos guardas da revolução, na rua. Anos mais tarde,exorcizou este fantasma de sua juventude fazendo Adeus, MinhaConcubina, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Vidas foramdestruídas, mas os crimes praticados em nome da ideologia (da?Revolução?) muitas vezes foram vinganças mesquinhas decontra-revolucionários. Quarenta anos depois, a China comunista capitalizou-se.O dragão chinês despertou e os especialistas tecem loas aosnúmeros que apontam para o crescimento da China como economia demercado, mas o cinema não faz uma idéia muito lisonjeira doprocesso. Basta ver o filme Still Life, de Jia Zhang-Ke, quepassa hoje, às 19h40, no Espaço Unibanco 3 e amanhã às 17h30, no CineSesc. É um filme sobre a demoliçãodo comunismo na China para a criação do modelo de sociedadeglobalizada que o autor mostrou em seu filme anterior - OMundo, sobre aquele parque temático em Pequim, que venceu oprêmio da crítica no ano passado. Still Life venceu o Leão de Ouro de 2006 do Festival de Veneza. Do próprio Zhang-Ke, você pode ver, também amanhã, às22h10, no Arteplex 3, o documentário Dong, que ele fez namesma região em que filmou Still Life, usando um artista (opintor Liu Xiao-dong) para interferir na dura vida dos operáriosque trabalham no dique que vai alagar a região das TrêsGargantas. E também amanhã, às 19h40, no CineSesc, logo apósStill Life, passa Summer Palace, de Lou Ye. O que ocorreucom os jovens que fizeram o protesto da Praça da Paz Celestial,marco transformador da história chinesa? A China está próxima,mas não no sentido que Bellocchio pensava, há 39 anos. Integradaao mundo globalizado, a China está agora próxima pelos problemasque Zhang-Ke e Lou Ye filmam de forma tão crítica.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.