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'A Chegada', sobre comunicação com Ets, propõe discussão sobre Babel terrena

Filme conta história de linguista que é contratada para decifrar linguagem dos alienígenas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2016 | 05h00

Você pode apostar que Amy Adams será indicada para o Oscar. Ela já parecia imbatível por A Chegada, o novo Denis Villeneuve, que agora estreia. Tornou-se mais ainda com Animais Noturnos, o novo Tom Ford, e com a vantagem de, no outro filme, estar bela como nunca, suntuosamente vestida, maquiada e ornada de joias pelo estilista. Amy Adams! Ela faz uma linguista em A Chegada. Rapidamente, o roteiro nos informa de sua perda. E chegam os ETs. Amy é convocada pelo militar Forest Whitaker, que já se utilizou de sua habilidade na decifração de línguas e códigos numa questão envolvendo o Talibã. Agora, a missão é complexa. Dela pode depender o futuro da Terra. O que querem os ETs? Como se comunicar com eles?

Amy não é designada sozinha para o caso. Com ela trabalha Jeremy Renner, como um matemático. Incêndios, Sicário – a obra em processo do canadense Villeneuve é toda ela uma tentativa de compreender a violência do mundo. O texto de Wajdi Mouawad sobre o último pedido de uma refugiada a seus filhos, a policial que tem seu batismo de sangue com o tráfico na fronteira mexicana. Villeneuve gosta dessas mulheres frágeis e fortes. Numa mensagem gravada, quando seu filme inaugurou o Festival do Rio, ele contou que foi marcado por 2001, a obra-prima de Stanley Kubrick. Sempre quis fazer uma ficção científica. Descobriu a história de Ted Chiang (leia texto nesta página). Não era fácil de adaptar. O roteiro de Eric Heisserer, do sinistro Quando as Luzes se Apagam. forneceu-lhe a chave.

O cinema contou muitas histórias de ETs do mal, quase sempre para acirrar a paranoia que ronda a ‘América’. É uma sociedade que, como dizia o grande Arthur Penn, teme o outro, o diferente, e só consegue resolver seu conflitos pela violência. Quando Amy e Renner iniciam a comunicação com os bizarros ETs – octópedes –, o avanço é lento. Alguém já disse que eles alfabetizam os alienígenas. Menos – na verdade, eles pertencem a uma civilização superior. A grande questão que logo de forma é o significado atribuído a um signo, porque a comunicação é feita por signos, não palavras – arma ou ferramenta? Amy sustenta que é ferramenta, os militares dizem que é arma e já querem atacar.

A Chegada é menos denso e apaixonante que Incêndios ou Sicário, mas propõe, certamente, uma dupla experiência das mais intensas. É visualmente belo, e misterioso. As naves dos ETs são alongadas e, para chegar até eles, é preciso atravessar um corredor. Havia outro (corredor) subterrâneo que era passagem para os traficantes na fronteira, lembram-se? Aqui, o significado é outro. Não existe muita ação, porque a aventura é interior. Amy – sua personagem – adquire um poder. Supera a própria perda – supera talvez não seja a melhor definição, porque é uma coisa muito dolorosa – e com certeza torna-se uma pessoa melhor, mais tolerante. Certas coisas, no filme, são tão misteriosas que algumas reviravoltas da narrativa beiram o inexplicável. Talvez seja a essência de A Chegada. A comunicação, o entendimento não dependem da racionalidade, ou só dela. Ligam-se à emoção. Viajar nos enigmas de A Chegada é o tipo de experiência que vale compartilhar.

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