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'A Chance de Fahim', com Gérard Depardieu, é trama inspiradora

O diretor Pierre-François Martin-Laval conta como descobriu a história

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 10h00

Numa entrevista por telefone, de Paris, o diretor Pierre-François Martin-Laval, de A Chance de Fahim, que estreou quinta, 6, conta que estava no carro, ouvindo a rádio, quando soube da história do menino de Bangladesh que vivia clandestino com o pai na França e havia vencido um torneio juvenil de xadrez. Martin-Laval interessou-se pela história, e foi correndo atrás do livro Le Roi Clandestin/O Rei Clandestino, que havia sido o tema da entrevista. Leu, achou a história “inspiradora” e tratou de comprar os direitos. Martin-Laval sabia que seria necessário um casting para encontrar os atores capazes de interpretar Fahim e seu pai. Sabia, também, que um filme com atores desconhecidos (e estrangeiros) não seria fácil de financiar. Buscou, então, duas alternativas.

De cara, resolveu que Mathilde, a dona da academia em que Fahim vai cursar xadrez, teria de ser interpretada por Isabelle Nanty. Ela é muito conhecida como comediante. Arrebentou nos cinemas com Les Tuche, que virou franquia. Fez séries de sucesso como Fais pas Ci, Fais pas Ça e Péplum (como uma escrava na Roma Antiga). São amigos. Isabelle nunca foi problema. Martin-Laval resolveu, então, arriscar. 

Convencido de que Gérard Depardieu – a quem considera um dos dez maiores atores do mundo – seria perfeito como Sylvain Charpentier, o irritadiço instrutor na academia de Mathilde, enviou o roteiro para o agente do ator. Não colocava muita fé, mas recebeu uma primeira resposta positiva. “Gérard vai ler.” Dois dias depois, o sim. A Chance de Fahim começou a nascer. “Saí a campo, indo aos locais de Paris em que moravam os egressos de Bangladesh. Organizamos o casting. Entrevistamos muita gente, e o primeiro a chamar minha atenção foi Mizanur Rahanan, que faz o pai. Assad Ahmed, o Fahim, veio depois, e o problema é que ambos vinham de diferentes partes de Bangladesh, falavam diferentes dialetos, não conseguiam entender-se. Foi preciso um trabalho muito paciente, mas deu certo.”


O próprio Martin-Laval reservou-se o papel de Peroni, o personagem “antipático” da trama. É o treinador do principal adversário de Fahim, na verdade é adversário de Charpentier, com quem mantém uma velha rixa. É um idiota, imbecil. Por que fazer o papel? “Embora seja fundamentalmente uma história de superação, o filme também aborda as questões da imigração e do preconceito. Se eu conto essa história do lado que considero certo, achei que seria bom colocar-me no ponto de vista do outro. Espero ter evitado a caricatura. Peroni recebe uma lição de ética de Charpentier. Acho que, no limite, é o que está em jogo. A ética é o grande tema contemporâneo. A falta dela está na origem de tudo – preconceito, desigualdade, violência.” 

Martin-Laval conta que fazer o filme foi muito importante para ele. “A gente nem se dá conta quando está dizendo não a essas pessoas que vendem souvenirs de Paris, em pontos turísticos. Passam a fazer parte da paisagem, mas são pessoas – pais, filhos. Têm famílias, histórias por trás.”

Depardieu? “Gérard virou um personagem muito polêmico na França. Particularmente, acho que é um dez maiores atores – não da França, mas do mundo. Mas desde que passou a produzir vinho, creio que a questão da terra, e dos impostos, mexeu muito com ele. Gérard adquiriu um passaporte russo, prestou declarações que não caíram bem. Ao apertar a mão de Vladimir Putin elogiou a democracia russa, o que é um absurdo. No set, quando puxava o assunto, ele dizia que tem passaportes da Argélia, até da Turquia. Passa essa ideia de que não está mais nem aí para a França, o que pode gerar incompreensão e mal-estar. Mas essa é uma impressão superficial. No set é caloroso, generoso, um dos sujeitos mais encantadores com quem trabalhei.” 

O repórter relata uma experiência pessoal. Depardieu já foi um dos homens mais belos do mundo, quando fez o Bertrand Blier, Os Corações Loucos/Les Valseuses, e o Bernardo Bertolucci, Novecento. Em ambos, de 1973 e 76, coincidência ou não, tem cenas de nu frontal. Depois, perdeu a forma, virou esse ogro, imenso. Mas, nas cenas com Mathilde, Charpentier vira menino de novo. Tímido, e Depardieu é maravilhoso. Lembra o Marlon Brando, que parecia uma bola, mas dançava com aquela elegância com Faye Dunaway em Don Juan de Marco.

“Ele é um ator prodigioso. Um dos prazeres desse set, num filme que fala de coisas tão duras, mesmo que de forma amena, era ver a entrega de Depardieu, as cenas dele com Mathilde e as de Fahim com seu pai. Pode parecer banal, mas o filme fala de afeto, e só o afeto vai nos salvar. A violência, as armas, os desaforos só radicalizam as diferenças”, avalia Martin-Laval. E ele conta. “Gérard, de início, recusou um instrutor de xadrez para ele. Mas, depois, ele julgou que seria necessário e chegava mais cedo no set, para repassar as cenas com o instrutor.” 

Por se tratar de uma história real, A Chance de Fahim, termina, nos créditos finais, com imagens dos personagens. É dedicado ao Charpentier da vida. E Fahim e o pai conseguiram a cidadania francesa? “O processo está pendente, mas a família já se reuniu e os prognósticos são favoráveis.” Como foi o filme na França? “Tivemos críticas muito boas e um debate muito interessante, mas o filme abriu em outubro, com o Coringa, e terminou atropelado pelo fenômeno de Hollywood. Faz parte.”

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