‘A Canção da Floresta’, que retrata viagem musical pela África, abre o É Tudo Verdade

Festival de documentários terá a exibição de 77 longas de 26 países

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2014 | 17h42

Michael Obert lamenta não estar presente na abertura da edição paulista do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Queria ver como o público brasileiro vai reagir a seu filme premiado no ano passado em Amsterdã. “Louis (o protagonista de A Canção da Floresta) é norte-americano e eu tenho a impressão de que um monte de gente no Brasil sonha com o estilo de vida que ele rejeita. Isso poderá despertar reações contrárias.”

O É Tudo Verdade de 2014 abre-se amanhã para convidados em São Paulo e na sexta no Rio. Será a 19.ª edição do maior evento de documentários no País. Para a abertura em São Paulo, Amir Labaki selecionou o longa de Michael Obert. Numa entrevista por e-mail, o diretor explica-se. “Para mim, uma pessoa sem uma casa de verdade, um caçador de histórias que passou os últimos 20 anos viajando aos confins do mundo, Louis Sarno é a pessoa mais fascinante que já encontrei.”

Louis quem? O personagem central de Canção da Floresta é um norte-americano que se apaixonou pela música Bayaka, na África. Casou-se com uma nativa, teve um filho, que leva para conhecer os Estados Unidos. Sente que não tem mais nenhuma ligação com a antiga patria. “Louis é um grande contador de histórias, mas o mais importante é seu olhar. Não é todo mundo que tem coragem de começar de novo, de se tornar outra pessoa.”

Em meados dos anos 1990, Obert viajou de Iquitos a Manaus, pelo rio Amazonas. “A floresta amazônica e a floresta Basin, no Congo, são similares em termos de meio ambiente e também de cultura. Perdê-las seria como perder as raízes de nossa humanidade.” E o que é a música Bayaka que seduziu Louis Sarno? “É o som da floresta transformado em música. Aves, insetos, sapos, o som nas folhas, o murmurar dos rios.” O diretor explica que filmou mais de 90 horas e que a montagem foi longa.

“Demorou um ano, no final, a música apontou o caminho.” Mas não a música Bayaka. “A música clássica preferida de Louis é uma peça medieval composta no século 16 por William Byrd. A velha música religiosa da Europa tocada na floresta. Quando iniciei a montagem, senti que a dramaturgia não me inspirava. Escolhi a liturgia e fui adaptando as imagens aos diferentes estágios da missa de Byrd. O filme celebra a grande missa da natureza.”

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Com 77 filmes, festival presta homenagens

Foram mais de 1.300 inscritos e, entre eles, Amir Labaki e sua equipe garimparam os 77 títulos que compõem a seleção do É Tudo Verdade. O maior evento de documentários do País abre-se na quinta, em São Paulo, com Canção da Floresta, de Michael Obert, e na sexta, no Rio, com Tudo por Amor ao Cinema, de Aurélio Michiles. O festival prolonga-se até dia 13 nas duas cidades e, depois, vai a Campinas, Brasília e Belo Horizonte. No ano passado, o festival antecipou-se às discussões sobre os 50 anos do golpe militar exibindo a versão restaurada de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Este ano, presta homenagem ao grande documentarista, assassinado em janeiro, e volta ao Cabra, exibindo os extras que integram o DVD do filme clássico, lançado pelo Instituto Moreira Salles. “É um ano de descobertas”, avalia Amir Labaki. E, embora seja impossível apontar um tema, ele identifica uma tendência, e ela está na forma (leia entrevista abaixo). No capítulo homenagens, É Tudo Verdade resgata o Shoei Imamura documentarista, faz justiça à grande Helena Solberg e exibe um inédito de Leon Hirszman. 

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Confira entrevista com Amir Labaki, diretor do festival

O festival nunca prestou tantas homenagens como neste ano. Shoei Imamura, Helena Solberg, Leon Hirszman e, claro, Eduardo Coutinho. Como foi montar tudo isso?

É muito bacana resgatar o Imamura, que as pessoas não conhecem, ou dar a Helena o reconhecimento que ela merece. É uma grande cineasta. O material do Leon Hirszman, sua entrevista com a doutora Nize da Silveira, é uma preciosidade recuperada pelo Eduardo Escorel. O triste é o tributo a Eduardo Coutinho, que não gostaríamos de estar fazendo, não por esse motivo. Mas ele merece. Coutinho extrapola o cinema. É um artista da estatura de um Graciliano Ramos, um Guimarães Rosa.

Como foi feita a seleção?

Tivemos mais de 1.300 inscrições, das quais cerca de um terço, 450, foram de brasileiros. A maioria vem de fora. Não dá para selecionar sozinho. Tem gente que me ajuda. Não foi fácil chegar a esses 77 títulos da programação. O importante é que a imensa maioria é de descobertas. O documentário não cessa de se renovar e surpreender. Como o mundo que reflete.

Não dá para falar num tema do festival. O que une esses filmes?

A questão da linguagem me parece cada vez se impor mais no documentário. O registro do real parece uma coisa simples, mas os diretores o fazem cada vez mais complexo. Há um diálogo do documentário com as demais artes, e isso é enriquecedor.

Há alguma coisa em especial para destacar?

Tem muita coisa, mas A Arte de Observar a Vida merece um registro especial. A grande documentarista Marina Goldosvskaya entrevistou os maiores. Richard Leacock, Albert Maysles, D.A. Pennebaker, Jonas Mekas. O que os trouxe ao documentário, seus métodos. As concepções muitas vezes são antagônicas, mas, além de mostrar que o documentário não é uma coisa só, a beleza do filme é que fala de amizade. É um dos mais belos filmes que já vi sobre amizade. 

FESTIVAL É TUDO VERDADE

De 3 a 13/4. Grátis.

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. 

Cine Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, Conj. Nacional, tel. 3285-3696. 

Espaço Itaú Augusta. Rua Augusta, 1.475, tel. 3288-6780.

Reserva Cultural. Av. Paulista, 900, tel. 3287-3529. 

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