Pandora Filmes
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'A Câmera de Claire' e 'Tully' estão entre as estreias da semana nos cinemas

Veja o que entra em cartaz nas telonas; programe-se para o fim de semana

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 06h00

A Câmera de Claire - ÓTIMO

Eis aí um filme rodado meio que no improviso, mas que, em razão do talento dos envolvidos, ficou um show. A Câmera de Claire, de Hong Sang-Soo, foi rodado durante uma estada do diretor num Festival de Cannes e contou com a presença, na cidade, da grande atriz Isabelle Huppert, incorporada ao elenco.

Ela é a Claire do título, mas a história começa de outro jeito e com outras pessoas. Durante uma viagem de trabalho a Cannes, a bela Manhee (Min-Hee Kim) é chamada para uma conversa com sua chefe. Para sua surpresa, Manhee é acusada de desonesta e, em seguida, despedida. Meio desconsolada, anda pelas ruas e conhece a francesa Claire, que também passeia e tira fotos com sua Polaroid.

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Aos poucos, uma história sentimental, feita de ciúmes e rivalidade profissional, vai sendo desvelada - e muito devido ao efeito das fotos que Claire vai tirando dos personagens. Há um comentário lateral sobre a questão das imagens, das fotos e do próprio cinema. Ao fazer suas imagens e mostrá-las em seguida às pessoas, é como se Claire fosse construindo uma narrativa na qual tudo passasse a fazer sentido. Não um significado único, mas um sentido possível. Como se as pessoas, desencontradas, se definissem através das imagens próprias fornecidas pela fotógrafa.

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O sul-coreano Sang-Soo tem o timing das peripécias amorosas e um sentido agudo dos diálogos entre os personagens. A naturalidade com que os sentimentos afloram, se afirmam e se contradizem faz de seu cinema algo único no panorama atual. No passado, outros diretores - como François Truffaut e Eric Rohmer - trouxeram com leveza e dignidade as cirandas amorosas para o cinema. Esse toque de magia agora pertence a Sang-Soo. Seus filmes são deliciosos. Parecem boiar no superficial. Apenas parecem. Como dizia Nietzsche, a profundidade pode ser apenas uma dobra da superfície.

Tully - BOM

Marlo (Charlize Theron) é mãe de dois filhos e ganha um novo bebê. Sobrecarregada de tarefas, sem conseguir dormir à noite com o choro da criança, aceita o conselho do irmão rico e contrata uma babá para o período noturno.

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Tully (Mackenzie Davis) é uma figura curiosa. Tem excesso de energia (“como a Arábia Saudita”, diz), mas, ao mesmo tempo, parece dispor de uma sabedoria invulgar para sua idade (tem 26 anos). Tem gosto pela aventura e é dotada de ousadia mental. Aos poucos, vai ocupando um espaço inesperado na vida de Marlo.

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Dirigido por Jason Reitman, com roteiro de Diablo Cody, Tully é aquele tipo de filme que dá mais do que se espera de início. Traça um panorama interessante (e um tanto aterrador) da depressão pós-parto e das fantasias femininas na entrada da maturidade.

O filme é das duas e o universo masculino pouco aparece, a não ser sob o signo da falta e da incompetência. Charlize e Mackenzie brilham e se complementam. Quase demais. Dizem que Charlize, que ama papéis difíceis, engordou 23 quilos para viver a atormentada Marlo.

Réquiem para Sra. J. - BOM

No início do filme, uma mulher monta pacientemente uma pistola. Ela se chama Jelena, ficou viúva, mora com filhas e sogra, e acaba de perder o emprego. A vida se tornou tão estreita e desesperada que parece não lhe restar alternativa melhor do que acabar com tudo.

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Réquiem para Sra. J. adota de início tom depressivo, com fotografia de tons desmaiados, largos espaços vazios, relações humanas despidas por completo de qualquer calor. Mas, aos poucos, o diretor Bojan Vuletic vai abrindo novas camadas. Surgem aspectos cômicos (no tipo de humor do Leste Europeu), e a história flerta com o absurdo, como quando Jelena descobre que a burocracia sérvia torna difícil a vida até mesmo dos que se dispõem a deixá-la.

A história se desenvolve durante a semana que antecede a cerimônia pelo primeiro ano de morte do marido de Jelena e que contará com presença de parentes do defunto.

Ao longo dos dias, haverá espaço para muita treva, uma radiografia implacável do estado do país e, sim, um fiapo de luz, porque senão ninguém aguenta.

A Vida Extraordinária de Tarso de Castro - BOM

Filme de Leo Garcia e Zeca Brito, A Vida Extraordinária de Tarso de Castro, de fato, fala de um personagem que nada teve de comum. Nascido em Passo Fundo, Tarso de Castro (1941-1991) mudou-se para o Rio e logo se transformou em figurinha carimbada da cena carioca. Fundador do Pasquim e de vários outros títulos da imprensa alternativa, Tarso foi um jornalista da escola antiga. Boêmio, mulherengo, bebedor, irreverente, era dono de texto invejável. “Escrevia como falava”, dizem os antigos colegas.

Dos depoimentos de amigos, inimigos e ex-mulheres, compõe-se a história da rivalidade entre ele e Millôr Fernandes, outra das estrelas do Pasquim. E veem-se várias imagens do próprio Tarso, captadas quando entrevistava alguém ou conduzia seu caótico programa de TV.

O filme é abrangente o suficiente para conter não apenas um personagem polêmico, mas toda uma época bem diferente da nossa. Eric Nepomuceno a descreve: “Durante a ditadura, havia uma união da esquerda para a resistência. Com a redemocratização, essas forças se dispersaram e hoje não temos nada”. Como negar?

Antes que eu me esqueça - RUIM

Polidoro (José de Abreu) é um juiz aposentado que pouco contato tem com os filhos. Preocupada, sua filha procura interditá-lo na Justiça. Polidoro tem outros planos. Antes que Eu me Esqueça, dirigido por Tiago Arakilian, mostra, como seu protagonista, seus altos e baixos. Poderia ser bem melhor.

Uma Escala em Paris - RUIM

Uma Escala em Paris, de Nathan Silver, é uma comédia romântica com traços originais. Uma comissária de bordo americana, Gina, apaixona-se por um garçom em Paris. Como ela é um tipo carente e ele um sujeito meio suspeito, a história se torna imprevisível. Promete mais que cumpre

Colheita Amarga - RUIM

Na Ucrânia dos anos 1930, rapaz com vocação para a música cresce em uma família de guerreiros. Tudo é lindo, até a invasão do exército de Stalin e a instauração do terror. Da idealização cai-se na barbárie nesse drama histórico de contornos maniqueístas e baixa sutileza.

Alguém como Eu - PÉSSIMO

Helena (Paolla Oliveira) resolve aceitar emprego em Lisboa. Lá conhece por acaso o advogado Alex (Ricardo Pereira) e engatam um romance. Dirigido pelo português Leonel Vieira, Alguém como Eu não disfarça a baixa ambição do projeto, veículo para elenco conhecido e ideias manjadas.

Olhos do Deserto - SEM COTAÇÃO

Operador de um drone na América do Norte, Gordon monitora um oleoduto no norte da África. Pelas lentes do robô, ele pode ver tudo e todos nessa região distante. E é aí que ele se encanta por Ayusa, uma jovem prometida a um homem mais velho. Mesmo longe, o rapaz tentará livrá-la de seu destino.

Chega de Fiu Fiu - SEM COTAÇÃO

A produção independente constrói uma narrativa composta de três momentos: uma microcâmera escondida em óculos usados por mulheres em seu dia a dia; a vida de três personagens de diferentes cidades (Brasília, São Paulo e Salvador); e o diálogo com especialistas sobre assédio, identidades, sexualidade, mobilização social e masculinidades.

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