"A Bruxa de Blair 2" discute limites da falsidade

Por mais blefe que seja (e é), A Bruxa de Blair entrou para a história como a produção independente mais bem-sucedida, comercialmente, de todos os tempos. O filme de US$ 35 mil faturou mais de US$ 140 milhões só no mercado americano. No mundo todo, foi o dobro. A Bruxa também abriu um precedente ao virar um fenômeno de comunicação (e consumo) por meio da Internet. Era inevitável que Hollywood produzisse uma seqüência. Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras, que estréia nesta sexta-feira, pode ser ruim - ninguém é doido de achar que um filme desses pudesse ser ´artístico´ ou, simplesmente, bom -, mas, enfim, não foi a qualidade que lotou os cinemas com o primeiro filme.Será uma trilogia. A empresa produtora Artisan trabalha atualmente no que será o terceiro filme - uma prequel, ou seja, um filme cuja ação se passa antes do original. Bruxa de Blair 2 é sequel, mas cabe observar que o filme estabelece verdadeira confusão com o tempo. Começa mostrando os efeitos da Bruxa sobre a comunidade na qual foi feito. Em seguida, um letreiro informa - um ano antes. E outro, alguns meses depois. O protagonista teve uma experiência no sistema manicomial. Oportunista, cria um tour pelos locais das gravações de vídeo. Forma-se um grupo que logo se está desintegrando pelo efeito do que parece ser a maldição da bruxa do século 17. E se tudo não passar de um produto de uma mente enferma? Ou de mentes enfermas num processo de alucinação coletiva estimulado pelo cinema?Documentarista premiado (de Brother´s Keeper e Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills), Joe Berlinger é o novo diretor, substituindo Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, que assinaram o primeiro filme.Berlinger, que tem certo prestígio intelectual, como diretor premiado, tenta livrar a cara incorporando ao relato o que parece ser uma discussão sobre os efeitos de um fenômeno como A Bruxa nos corações e mentes do público. Você, com certeza, deve lembrar-se de que a polêmica de A Bruxa começou quando os espectadores começaram a discutir se os tais vídeos encontrados na floresta eram mesmo autênticos (ou não). É como se Berlinger, preocupado com a responsabilidade social do cinema, se propusesse a discutir os próprios limites da falsidade nos filmes. Nada mais falso, já que se trata de uma operação oportunista para garantir mais dólares à empresa Artisan. A questão é - Bruxa de Blair 2 poderá repetir o êxito? É difícil, senão improvável, mas também é injusto dizer-se que A Bruxa é melhor e mais assustador. O primeiro filme era mais enervante, isso sim. O segundo, até por seguir alternativas mais convencionais de terror, nem isso consegue ser.A Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras (Book of Shadows: Blair Witch 2). Terror. Direção de Joe Berlinger. EUA/2000. Duração: 90 minutos. 14 anos.

Agencia Estado,

08 de fevereiro de 2001 | 16h39

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