A boa safra do cinema nacional na Mostra de Cinema

São nada menos que 42 títulos filmes brasileiros nesta 29.ª edição da Mostra. Um recorde - e que testemunha duas coisas, o novo interesse desse tipo de festival pela produção brasileira e, claro, a vitalidade do novo cinema nacional que vem surgindo por aí. Vitalidade tanto numérica quanto em termos de qualidade. De fato, fazia tempo que não havia uma safra nacional com tantos títulos de qualidade. Alguns deles são realmente imperdíveis, como Cidade Baixa, de Sérgio Machado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Esses dois, aliás, são caso à parte - estão entre os melhores filmes brasileiros feitos nos últimos anos e, sem nenhum favor, honrariam qualquer cinematografia do mundo. DocumentáriosA parte nacional da mostra está pródiga também em documentários, um gênero que tem florescido demais nos últimos anos. Entre eles, há alguns muito bons, que já foram apresentados em outros festivais, como Do Luto à Luta, trabalho de Evaldo Mocarzel sobre a Síndrome de Down, e 500 Almas, ensaio etnopoético de Joel Pizzini sobre a cultura dos índios guatós. Há documentários de temas convergentes como O Dia em Que o Brasil Esteve aqui, de Caito Ortiz e João Dornelas, e Ginga, assinado por vários autores. Os dois têm por tema uma paixão nacional (e, também internacional) - o futebol. Ortiz e Dornelas registram a ida da seleção brasileira ao Haiti para a disputa de um "jogo pela paz" com o selecionado local. Ginga, como o nome diz, é uma homenagem ao que o futebol tem de mais empolgante e criativo: a malícia dos craques e a sua maneira de livrar-se dos marcadores por meio dos dribles. Entre os documentários, destacam-se Mochila do Mascate, de Gabriela Greeb, que apresenta um diálogo entre e vida e a obra do diretor e cenógrafo Gianni Ratto, que muito acrescentou ao teatro brasileiro desde que deixou a sua Itália natal e se estabeleceu por aqui. Moacir, Arte Bruta, de Walter Carvalho, faz um mergulho na arte "primitivista". Nenhum deles parece ir mais longe do que o novo trabalho de Eduardo Coutinho, O Fim e o Princípio. Eis aí um filme intrigante. Como é dito desde o início, a questão é explorar um caminho que, no começo, não se sabe bem qual é. O diretor e sua equipe põem o pé na estrada, sem saber direito o que querem. Dirigem-se a uma cidadezinha na Paraíba e, através de uma moradora, Rosa, conseguem contato com outros habitantes da região. Um filme de depoimentos que se transforma em filme de filosofia.Alice Braga, em "Cidade Baixa"Cidade Baixa reflete uma pulsão jovem, e sexuada. O filme, de Sérgio Machado (roteiro dele próprio com Karin Ainouz), se constrói sobre um triângulo amoroso entre Karinna (Alice Braga, sobrinha de Sonia Braga) e os dois malandros Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura), amigos de infância. Cidade Baixa é um exemplar maravilhoso desse novo cinema brasileiro, que está sendo feito por gente jovem como o próprio Machado, Beto Brant, Lírio Ferreira, Cláudio Assis e Tata Amaral e mais alguns (poucos) outros. Cinema de baixo orçamento e pegada jovem, com movimento, suor, hormônios e muito talento e vontade de inovar. Cinema de risco. Num registro mais calmo,mas nem por isso menos inspirado, Marcelo Gomes traz com Cinema, Aspirinas e Urubus o encontro entre um nordestino (João Miguel) e um alemão (Peter Kethnat), vendedor de remédios no sertão, nos tempos da 2.ª Guerra Mundial. É um filme sobre a amizade, que aposta em silêncios, emoção contida, tempos chamados de "mortos" e pontas de roteiro deixadas livres, que serão devidamente atadas na cabeça do espectador. É um elogio à imaginação e à inteligência do público. Assistir a alguns desses filmes programados representa um refresco para o espectador que se interessa pelo cinema do País. Já há alguns anos a produção tem se mantido estável em termos de quantidade, mas a qualidade às vezes deixa a desejar. Muito afoito na procura do mercado, por vezes o cinema brasileiro tem-se diluído num comercialismo primário que não leva a nada. Pois bem, esses filmes, em sua grande maioria, desfazem essa má impressão. Dão testemunho de uma cinematografia forte, inventiva e com grandes perspectivas pela frente. É uma safra como havia muito não se via.

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