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'A Bíblia é uma peça literária muito rica', diz o diretor Milo Rau

'O Novo Evangelho' reconta a Paixão de Cristo incorporando a contemporaneidade

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

17 de agosto de 2021 | 20h00

Diretor de teatro e cinema, Milo Rau apresentou, no ano passado, em Veneza, sua mais recente criação, o filme O Novo Evangelho. Em textos e entrevistas, Rau repete sempre que criação artística é processo.

“Quando a cidade de Matera virou capital europeia da cultura, as autoridades me chamaram para encenar meu espetáculo sobre a Paixão de Cristo. Ofereci a contrapartida de um filme. Eles aceitaram e o prefeito até se reservou um papel importante, o do Cireneu, que ajuda Jesus a carregar sua cruz.” O grande diferencial de O Novo Evangelho, destaque do 10º Ecofalante, Festival de Cinema Ambiental, é mostrar um Cristo negro, o camaronês Yvan Sagnet. “A situação dos refugiados é uma tragédia contemporânea. A direita italiana gostaria que todos morressem no mar. Yvan luta por condições mais humanas de trabalho na produção agrícola, que é controlada pela máfia. A direita detestou nosso filme, mas tivemos o apoio do papa Francisco.” 

Matera foi o cenário de famosas incursões do cinema pela Bíblia. Em 1964, Pier Paolo Pasolini fez O Evangelho Segundo São Mateus e, 40 anos mais tarde, surgiu a versão de Mel Gibson, A Paixão de Cristo. Rau não tem muito apreço pelo épico religioso de Gibson, mas incorpora ao seu elenco a Maria do filme dele, interpretada pela atriz romana Maia Morgenstern. De Pasolini, traz o próprio Cristo, Enrique Irazoqui, como coencenador do filme dentro do filme. A estrutura é complexa. O elenco predominantemente africano ensaia a peça, que é filmada. “É como eu gosto, um filme de processo.” 

Rau conversa pelo telefone com o Estadão. “A Bíblia é uma peça literária muito rica. Foi escrita e depois reescrita por copistas ao longo do tempo. Cristo é um personagem complexo, com muitas faces. Nunca quis fazer um filme tradicional sobre a Paixão de Cristo, mas incorporar a realidade contemporânea. É a melhor maneira de contar essa história e repercutir na sociedade atual.” 

E Luchino Visconti? “Como assim?” Rau viu Rocco e Seus Irmãos há muito tempo. Não tem uma lembrança muito viva do filme, aliás, Visconti não é de seus autores favoritos. O repórter lembra o (re)encontro de Rocco e Nadia, Alain Delon e Annie Girardot. Ele está abandonando o Exército; ela, deixando a cadeia. Encontram-se na rua, por acaso. Tomam um café. Falam de questões humanas e sociais. Ele lembra os agricultores, que sonharam ter um pedaço de terra. Plantaram e, na época da colheita, apareceram os milicianos. Houve chacina. E onde foi isso? “Em Matera”, Rocco responde. Rau interessa-se pelo assunto, promete rever o filme. 

Promessa feita, e cumprida. O repórter recebe um e-mail dele agradecendo a ação. “Revi Rocco e tenho de admitir que fui injusto com Visconti. É um grande filme.” A questão no centro de O Novo Evangelho é a dignidade humana. “Cristo lutou por ela no passado, Yvan luta por ela hoje.” Rau define seu filme como um documentário utópico. “É sobre um processo de criação desenvolvido por nós e que documentamos.” Entre fato e ficção? “Exatamente. O filme mistura atores profissionais com os naturais, integra elementos de outras peças minhas. E, quando Cristo chega a Jerusalém, o que está sendo mostrado é uma manifestação de trabalhadores em Matera, com polícia e tudo.” 

Cristo busca seus discípulos. Simão, a quem chama de Pedro, e seu irmão, e André, ambos pescadores. “Vinde e vos farei pescadores de homens.” Andarilhos, com túnicas e mantos, percorrem estradas, entre carros e caminhões. “É a minha Bíblia on the road, nas estradas da vida.”

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