Antonio Lacerda/EFE
Antonio Lacerda/EFE

A bela que pode virar musa da 34.ª Mostra

Pilar López de Ayala fala de 'Lope' e do filme português que vai abrir o evento em SP

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2010 | 06h00

Houve sinais indicadores. Pilar López de Ayala integrou o júri de um festival na Espanha com Leonor Silveira, a musa de Manoel de Oliveira. Conversaram muito sobre o mestre centenário do cinema português. Leonor adiantou alguma coisa sobre o novo projeto do cineasta. Pilar voltou para casa, em Madri, e assistiu a alguns filmes de Oliveira. Foi quando recebeu um telefonema do produtor, dizendo que Oliveira queria que ela fizesse a protagonista de O Estranho Caso de Angélica. Antes mesmo de ler o roteiro, Pilar disse sim. Quando leu, convenceu-se de que era um filme que ela tinha, absolutamente, de fazer.

 

Pilar López de Ayala está no Brasil. Neste final de semana deve estar em Paraty. Ela não tem certeza de que conseguirá estar em São Paulo dia 21, para a abertura da Mostra de 2010, justamente com O Estranho Caso de Angélica. A entrevista realiza-se no pavilhão do Festival do Rio. Pilar veio mostrar para os cariocas o novo filme de Andrucha Waddington, Lope. Vieram ela e o ator que faz o dramaturgo espanhol, o argentino Alberto Amann. Ele é ‘guapo’. Causou frisson na sessão de encerramento do festival, na quarta à noite. Lope estreia em 26 de novembro, mas antes disso integra a programação da Mostra.

 

Quando subiu ao palco do Cine Odeon BR e foi intimada a dizer algumas palavras sobre Lope, Pilar agradeceu o privilégio de trabalhar com um diretor como Andrucha, "que ouve os atores e é muito educado". Andrucha improvisa bastante, e isso, ela diz, "é extraordinário para o ator, cria um espaço de liberdade para atuar que é estimulante." A experiência com Oliveira foi de outra ordem. "Ele é um controlador, tem o filme inteiro planejado na cabeça. Mas Manoel é um sábio de 101 anos. Sabe tudo de cinema e de cultura em geral. Mesmo controlando, ele reconhece o que o ator pode lhe dar, qual sua contribuição para o personagem."

 

O repórter insiste para que ela venha a São Paulo e confirme, pessoalmente, o fervor que o público da Mostra tem por Oliveira. "Lo sé. E não é só aqui. Descobri que há um culto a Manoel ao redor do mundo. É um milagre como um autor que se expressa, e filma, em português, consegue se fazer entender para plateias de todo o mundo." O que há de tão bacana em Angélica para que ela quisesse tanto estar no filme? "É uma belíssima história de amor, rica em metáforas. Interpreto uma antropófoga de almas." E como é fazer um filme ‘rico em metáforas’, como ela define? "É um pouco o contrário de Lope, que trabalha muito no plano da carnalidade. O amor de Angélica é outra coisa, não é físico."

 

Espírita. Superficialmente, o filme de Oliveira que abrirá a Mostra de 2010 pode ser incluído na onda de espiritismo que tomou conta do cinema brasileiro (e não apenas). Em Cannes, onde Angélica integrou a seção Un Certain Regard, Oliveira já havia dito que a morte é uma certeza e não lhe mete medo. O filme é sobre rapaz (Ricardo Trêpa, neto do realizador) chamado para fotografar garota que morreu. Ele fica obcecado por Angélica ao revelar as fotos e ver, não apenas que ela está de olhos abertos, mas que o mira sedutoramente. Apaixona-se. Angélica é uma devoradora de almas, como diz Pilar.

 

Em Lope, ela faz Elena Osorio, amante do dramaturgo Lope da Vega e estopim do processo que ele sofreu e o levou ao desterro. Como foi criar uma personagem real e, ao contrário de Angélica, tão carnal? "Embora seja real e existam partes da vida de Lope que são muito documentadas, a ligação com Elena tem muita coisa secreta. Inspirei-me mais na peça que ele próprio escreveu, à maneira de autobiografia, sobre o assunto, Doroteia. É uma personagem muito rica. Atingida em sua honra, ela reage contra Lope, mas sempre o salva, no limite. Para mim, é eternamente apaixonada por ele."

 

Praias. Reconhecendo estar num momento especial de sua carreira, Pilar López de Ayala só lamentava não ter tempo de conhecer o Rio - e o Brasil -, como gostaria. "Cheguei e só pude ver as praias pela janela do carro. São preciosas." Do hotel para a pré-estreia de Lope e a festa de encerramento. Do hotel para o pavilhão da entrevista. "Gostaria de ter tempo de conhecer esse País que é tão maravilhoso no imaginário da gente. A realidade sempre é outra, mas uma coisa corresponde. ‘Las gentes son muy buenas.’ Esse esquema de coprodução internacional que viabilizou Lope é muito positivo. E o Andrucha é um modelo de educação. Na Espanha, não temos diretores assim."

 

Uma maratona com mais de 400 títulos

 

Leon Cakoff realiza neste sábado, 9, pela manhã a coletiva de lançamento da 34ª Mostra em São Paulo. O evento internacional de cinema mais longevo do País começa dia 21, no Auditório do Ibirapuera, com a exibição de O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, em presença do autor.

 

Durante duas semanas, de 21 a 4 de novembro, o cinéfilo paulistano terá de ter muita resistência para tentar acompanhar mesmo que seja uma parcela da Mostra. Afinal, serão mais de 400 filmes - haja fôlego. Míseros 10% deste total representam 40 filmes, quase três por dia.

 

O cartaz e as artes da 34ª Mostra são assinados por Wim Wenders, que ganha uma exposição de fotos - Lugares, Estranhos e Quietos - e ainda apresenta a versão integral de Até o Fim do Mundo, com 280 minutos de duração. Outra exposição trará os desenhos que Akira Kurosawa fazia como storyboards de seus grandes filmes. A Mostra vai abrigar o lançamento de livros sobre os dois diretores.

 

Os vencedores de Cannes (Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul) e Veneza (Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola), do recente Festival do Rio (VIP’s, de Toniko Melo), o novo Woody Allen (Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos), todos integram a programação. A Mostra traz até o melhor filme de Cannes 2010, Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa.

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