"A Bela e a Fera" ganha cena inédita

Há 11 anos, foi a maior sensação: A Bela e a Fera fez duplamente história. O uso do computador e a indicação do filme para concorrer ao Oscar, na categoria principal, foram marcos na história de Hollywood. A bela e a fera continuam dançando no computador, na admirável animação de Gary Trousdale e Kirk Wise, mas o uso da computação gráfica virou o feijão-com-arroz dos desenhos atuais. Trousdale, que foi um dos primeiros (o primeiro?), a anunciar a tendência, lamenta que isso tenha ocorrido. "Por mais que o desenvolvimento tecnológico seja fundamental, o uso indiscriminado do computador matou uma animação tradicional que era muito rica e fascinante."Ele diz isso numa conversa por telefone, de Los Angeles, aproveitando o fato de que A Bela e a Fera está sendo lançado em vídeo e DVD (duplo) no País. De novo a animação da Disney faz história, marcando uma nova etapa de venda em bancas. E o DVD traz uma novidade: uma música excluída na versão original. "Adorávamos aquela música, Kirk, o compositor Alan Menken e eu, mas não houve houve jeito de incluí-la em 1991; quando planejávamos o lançamento em DVD nos veio a idéia de finalmente reintegrar a música da qual gostávamos tanto." Não foi uma operação das mais fáceis. Implicou em mais seis meses de trabalho de uma equipe numerosa e um custo adicional considerável, mas o estúdio resolveu bancar."Chamamos boa parte da equipe original e criamos mais cinco minutos de filme", conta Trousdale. Você se lembra da história: a Bela vai parar no castelo da Fera, que é um príncipe vítima de uma maldição. Não apenas ele: todo mundo em seu castelo foi enfeitiçado e o encanto só será quebrado quando a Fera inspirar amor (e compaixão) numa mulher. Essa canção mostra a expectativa de todos seres que foram enfeitiçados no castelo. Eles sentem que a Bela está se apaixonando e acreditam que, sim, será possível quebrar o feitiço e voltar à vida normal.Não é a menor das atrações do DVD, que inclui, entre outros extras, cenas do espetáculo na Broadway ? a versão brasileira está no Teatro Abril, em São Paulo ?, jogos, making of, uma parafernália e um tanto de efeitos. Trousdale lembra que A Bela e a Fera foi feito misturando animação tradicional e efeitos computadorizados. Esses se referem, principalmente, à cena do baile, quando a Bela e a Fera dançam e os movimentos de câmera lançam o espectador numa espécie de vertigem. A partir dali, tudo vai mudar na história. Era preciso criar um clima especial, de forma a que o espectador também participasse da vertigem que acomete os personagens. "Nossa intenção (de Kirk e minha) foi servir à narrativa; o computador, com tudo o que permite criar, como movimento e perspectiva, veio servir ao nosso propósito de fazer avançar à história criando o maravilhoso."Novas mídias ? Esse "maravilhoso" está na essência de A Bela e a Fera, que virou um clássico em live action de Jean Cocteau, com co-direção de René Clement. Trousdale acha o filme de Cocteau "mágico". Reclama do que lhe parece uma característica negativa do cinema atual e não apenas no que se refere à animação. "Nós usamos a técnica em função da história que queríamos contar, hoje em dia, cada vez mais, seja em animação ou live action, a história é que serve à técnica e, isso, eu, particularmente, acho um erro muito grave." Trousdale anda tão aborrecido com os rumos da animação atual que confessa: trabalha agora não com novas tecnologias, mas novas mídias. Animação para internet, por exemplo. E, secretamente, acalenta o sonho de fazer uma animação à moda antiga, bem tradicional, tentando produzir no desenho manual e no acetato esses efeitos que hoje ficam todos por conta do computador.Na seqüência de A Bela e a Fera surgiu O Rei Leão e ambos são os desenhos mais famosos da Disney nos últimos anos. Não só os mais famosos: os melhores, também. Alguns críticos chegam a radicalizar e acham O Rei Leão a obra-prima do estúdio criado pelo velho Walt, superior mesmo a obras consideradas clássicas, como Branca de Neve e os Sete Anões e Fantasia. Ambos adquiriram uma vida além da própria animação. Viraram espetáculos na Broadway, que hoje correm o mundo ganhando encenações em diversos países. Trousdale tem alguma interpretação para esse sucesso todo? "Eu não, mas minha mulher sim. Ela diz que O Rei Leão faz sucesso principalmente junto aos meninos e seus pais, enquanto A Bela e a Fera agrada às meninas e suas mães. Estou dando a interpretação de minha mulher: no fundo, ela diz que se trata da expressão de um sonho feminino ? o de que o homem amado, independentemente de aparência física, é sempre um príncipe."Isso leva, obrigatoriamente, a Shrek, a animação da DreamWorks que segue o caminho radicalmente oposto ? e, em vez de o ogro virar um belo príncipe, é a bela princesa que vira um ser monstruoso. De novo os críticos ? alguns deles acham que um desenho como Shrek não é só politicamente incorreto, mas é a própria negação do propósito pedagógico que está por trás da maioria dos desenhos infantis ? os da Disney, principalmente ? e, por isso, agrada mais ao público adulto. "Sem dúvida que eles fizeram Shrek como um anti-A Bela e a Fera, mas eu não acho ruim", diz Trousdale. À parte a rivalidade entre os estúdios, acho que é a prova da excelência do nosso trabalho, que tem de servir de parâmetro, mesmo que seja para ser contestado."O assunto continua sendo o conceito de politicamente correto. O repórter observa que virou uma praga. Hoje em dia, uma cena como a da floresta em Branca de Neve seria impossível na própria Disney. Seria considerada muito assustadora para crianças. O discurso de Trousdale, mais uma vez, é apaziguador. "Os executivos estabelecem os limites, o que não deixa de ser uma censura e nós, os diretores, tentamos passar algumas idéias, algumas ousadias, nas entrelinhas. Mas talvez seja bom que eles existam como sinalizadores, para que a gente não ouse demais e termine perdendo os próprios parâmetros. Afinal, estamos trabalhando para crianças, numa fase de desenvolvimento do seu caráter e da sua personalidade. É uma responsabilidade social muito grande e que não podemos ignorar." Trousdale fala muito no plural ? nós. Refere-se a quem: Kirk Wise e ele? "Refiro-me mesmo à companhia, a nós, animadores, em geral. Kirk deixou o estúdio; não trabalha mais conosco, mas é alguém cuja competência fala por si mesma", ele diz.

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