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'A Bela e a Fera', a aposta de 300 milhões de dólares da Disney

Hollywood adora revisitar grandes sucessos que chega a ser exasperante e a Disney tem uma tradição particular de explorar e reexplorar as mesmas histórias

Brooks Barnes, The New York Times

18 Março 2017 | 15h17

O clima na Walt Disney Studios no começo do ano passado era de euforia: o remake com personagens reais de um dos filmes animados mais queridos da Disney, A Bela e a Fera, estava em produção e sem nenhum problema.

A Disney reuniu um elenco de estrelas liderado por Emma Watson no papel da Bela. A aposta em uma tecnologia ainda não testada para criar uma Fera selvagem, mas simpática, deu certo. O trailer de 90 segundos tinha gerado 92 milhões de visualizações online no primeiro dia e deixou Hollywood de queixo caído. Nem mesmo Guerra nas Estrelas: o despertar da força atraiu tanta atenção.

Mas então veio a tempestade num bule de chá.

A Disney divulgou um vídeo mostrando Emma Watson e todo o elenco do filme durante um ensaio. No fundo, atrás de Luke Evans (Gaston) e Josh Gad (LeFou) havia uma imagem de um bule de chá branco com um rosto humano estampado nela. Seria o rosto de Mrs. Potts (Madame Samovar) a governanta que se transformou num bule encantado? Não parecia com a outra Mrs.Potts da animação de 1991. Onde estava seu nariz em forma de bico? 

“Queríamos manter o nariz em forma de bico, realmente”, disse Bill Condon, que dirigiu o novo filme. “Mas por mais que tentássemos, ela sempre se parecia a um porquinho.”

Para Hollywood esta é uma história antiga. Quando você interfere nas lembranças, mesmo com a melhor das intenções, terá de enfrentar as consequências.

No geral, as manifestações de protesto desaparecem rapidamente. Foi o que ocorreu no caso de Mrs. Potts (ou Madame Samovar). Em outras situações, como a recente querela sobre um personagem gay no filme, a consternação online pode se tornar uma bola de neve e acabar prejudicando o filme. Por que a Disney achou que valia a pena correr o risco de modernizar a Bela e a Fera? E o que está por trás dos planos do estúdio de fazer a mesma coisa com O Rei Leão, A Pequena Sereia e outras pérolas animadas que os fãs continuam adorando?

Algumas pessoas veem nisso apenas ganância por dinheiro, uma maneira de manter as catracas dos parques temáticos sempre em funcionamento e as meninas implorando para os pais comprarem roupas de princesas. Mas a resposta na verdade é muito mais complexa.

Hollywood adora revisitar grandes sucessos que chega a ser exasperante e a Disney tem uma tradição particular de explorar e reexplorar as mesmas histórias. 

Mas em geral a volta aos personagens clássicos não é aleatória. O próprio Walt Disney se sentiu atraído por Cinderela e outros contos de fadas porque era uma maneira de usar uma forma de arte cinematográfica inovadora (no caso, animação feita à mão) para dar vida a personagens de uma forma contemporânea e envolvente. 

A Bela e a Fera de Bill Condon se insere nesse mesmo contexto.

A história é basicamente a que você conhece. A jovem que se sente deslocada no vilarejo francês de mentalidade tacanha, é mantida prisioneira num castelo onde os servos por um passe de mágica se transformaram em objetos de casa (um candelabro espirituoso, um relógio temperamental). Um príncipe arrogante, transformado em monstro, tem de encontrar o amor verdadeiro para reverter o feitiço que caiu sobre ele. Bela usa um gracioso vestido amarelo na cena no salão de baile e a sequência de dança dos talheres, Be Our Guest, ainda é um espetáculo inspirado em Bubsy Berkeley.

Mas os roteiristas Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos deram mais profundidade à história, indagando sobre o que aconteceu com a mãe de Bela, e se estenderam mais sobre as razões pelas quais o príncipe foi atacado, além de acrescentar um novo personagem familiar, um delicado piano (Stanley Tucci). Condon também insistiu na modernização, criando Zip (Nathan Mack) o filho de Mrs. Potts, mais parecido com um skatista. E o servo cômico LeFou agora é gay.

E mais importante, este novo filme de A Bela e a Fera tem cenas em que se misturam humanos com personagens e cenários produzidos digitalmente - que é a linguagem cinematográfica do momento - para reviver a história num contexto moderno, como a Disney fez com Mogli, o menino lobo. A Fera de Condon, por exemplo, é um personagem totalmente digitalizado. Uma maquiagem fosforescente que parece azul sob a luz ultravioleta foi aplicada em Dan Stevens (Downton Abbey) e as câmeras registraram cada poro do seu rosto quando ele estava interpretando; um software especial então converteu suas expressões em dados e na Fera peluda e com chifres.

A Bela e a Fera, produzida pela equipe de David Hoberman e Todd Lieberman (dos Muppets, de 2011) pode parecer um sucesso na certa agora, com as vendas de bilhetes antecipadas pelo Fandango ultrapassando as do Capitão América: Guerra Civil. Mas o musical de Bill Condon realmente implicou um grande risco.

Emma Watson, conhecida pelo seu papel de Hermione na série Harry Potter, não era considerada uma grande cantora. O filme custou mais de US$ 300 milhões em termos de produção e marketing e a Disney, apesar das preocupações sobre como atrair homens e meninos para o musical - reservou um orçamento enorme para a produção antes de La La Land mostrar que existe de novo interesse nesse gênero. 

E depois seria preciso saber a reação dos fãs. A Disney já realizou outros remakes de clássicos animados, incluindo Cinderela e Mogli, que se tornaram sucessos comerciais e de crítica. Mas A Bela e a Fera é especial. A imagem e a música da versão de 1991 nunca desaparecem em parte porque a Disney usou a trilha de Howard Ashman-Alan Menken para o musical que foi sucesso na Broadway durante 13 anos e rodou 20 países. A Bela e a Fera também se afasta da fórmula da princesa - que salva seu amor - adotada pelo estúdio, e simboliza um período criativamente fértil de 1989 a 1999, conhecido como a Renascença da Disney.

“Sentimos uma tremenda responsabilidade para com os clássicos de animação”, disse Bailey. “O que significa perguntar, antes de começar a trabalhar em um novo filme, ‘qual é o compromisso que cada um tem com o público?”' No caso dos clássicos, o que as pessoas se lembram são das emoções. Mas A Bela e a Fera é o primeiro da renascença. As pessoas realmente conhecem a história nos mínimos detalhes”.

A lista de adaptações de filmes animados com humanos também interferindo inclui Dumbo, com direção de Tim Burton; Aladim, dirigido por Guy Ritchie; O Rei Leão, com Jon Favreau atrás das câmeras; Cruella, estrelado por Emma Stone, e A Pequena Sereia com Lin-Manuel Miranda ao lado de Menken escrevendo as músicas. A estratégia, estabelecida por Alan Horn, chairman da Disney na área de cinema, explica o que a Marvel Studios, de propriedade da Disney, fez com os filmes de super-heróis: usou personagens que penetram na cultura popular e são alçados com a presença de grandes estrelas e cineastas de peso.

Bill Condon, que dirigiu o musical Dreamgirls, filme que recebeu oito indicações para o Oscar em 2007 e ganhou dois, não estava particularmente entusiasmado com mais um mundo gerado em computador. Ele já havia feito isso nos dois episódios finais da série Twilight. Os dois episódios que ele fez de Amanhecer (2011 e 2012) foram um sucesso comercial, mas muitos críticos não gostaram. Mesmo Condon, que conquistou um Oscar em 1999 pelo roteiro de Deuses e Monstros, estremece ao lembrar das imagens geradas por computador para criar um bebê metade vampiro e metade humano. Segundo ele, “foi um desastre”.

Mas foi atraído pelo desafio de produzir um filme em que as estrelas são também móveis que falam e adorou a ideia de combinar a tecnologia mais avançada na produção de filmes com um musical suntuoso no velho estilo. Embora alguns personagens sejam criações inteiramente digitais, ele os colocou em cenários totalmente reais. A cena que abre o filme - Bela caminhando pelo vilarejo e sonhando com algo “mais do que esta vida de província” - incluiu 150 extras, 28 carroças e centenas de animais vivos.

“O que mais gostei foi a oportunidade de recuperar algumas das tradições musicais de Hollywood”, disse Condon. Ele chegou a cometer “extravagâncias, fazendo algumas alusões a musicais como Cantando na Chuva e A Noviça Rebelde. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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