A aura sagrada dos lugares que a música escolhe como seus

Circo Voador não fazia distinção entre o pop e o underground, e acabou virando uma Zona Franca de todas as experiências

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2014 | 19h00

No mundo dos shows, existem os artistas, existem os festivais, existem os cronistas e existem os lugares - ou as venues, como eles costumam dizer.

O CBGB, no número 315 da Bowery, em Nova York, foi um lugar cuja mística sempre foi mais forte do que sua estrutura física, um acanhado porão de iluminação deficiente que lançou Ramones, Blonde, Misfits, Patti Smith, Cramps, Television, entre outra centena de nomes fundamentais do rock.

Em Londres, quem nunca foi ao Ronnie Scott’s nem sequer sonhou. É um clube de jazz que, há 55 anos, domina a cena com as suas modestas instalações no Soho, e em cujo palco se apresentaram Nina Simone, Chet Baker, Wynton Marsalis, Ella Fitzgerald, entre centenas de outros. Há uma sacralidade ali que é incomum, não é possível se obter em qualquer lugar.

Claro, não se pode deixar de mencionar The Cavern Club, em Liverpool, berço dos Beatles e outros como Rolling Stones, The Yardbirds, The Who e Elton John. E The Hacienda, em Manchester; The Fillmore, em São Francisco; Tipitina’s, em New Orleans.

O Madame Satã, em São Paulo, foi um desses locais cuja existência física se confundiu com a cena musical de sua época.

Certamente, no Rio de Janeiro, o Circo Voador foi uma dessas âncoras de atividade artística febril. De 1982 em diante, em qualquer lugar do País (mesmo lá no interior do Paraná), a menção ao nome Circo Voador era fantasista, instigante, idealista. "Deveria haver uma mistura, porque o pobre olha o rico e adota seu comportamento. As pessoas que vêm aqui são trabalhadores, não têm tempo para criar no escuro, no vazio", teorizou Perfeito Fortuna, um dos principais mentores do projeto Circo Voador, em uma entrevista em 1986, ao Jornal do Brasil.

É curiosa a onda de redefinição de sua História, com o livro Circo Voador - A Nave, de Maria Juçá, e agora o filme. Até então, uma menção no filme Cazuza, O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, por meio da trajetória de Cazuza (desde o início na peça Paraquedas do Coração, até a explosão com o Barão Vermelho), tornava evidente o protagonismo do Circo para o grande público.

Precisamos de "um local, um local, um local", dizia Perfeito Fortuna no início dos anos 1980. O Circo Voador abrigou tanto o underground quanto projetou o novo establishment; acochambrou do novo rock ao velho blues. Kid Abelha, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Rapazes de Vida Fácil, Nas Coxas, Leite de Pedra, Lobão, Serguei, Big Gilson. Um dos recordistas de apresentações lá não foi, ao contrário do que se pensa, o Barão Vermelho ou os Paralamas do Sucesso. Foi o gauche Celso Blues Boy, que subiu ao palco do Circo 104 vezes. "A gente toca aí pelo Brasil inteiro. Você pode estar na Paraíba e chega alguém: 'Eu vi teu show no Circo Voador", contou Blues Boy.

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Circo Voador A Farra do Circo

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