Detail Films
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A 'Árvore dos Frutos Selvagens’ traz de volta Nuri Ceylan

Filme do diretor turco acompanha as andanças do jovem Sinan (Dogu Demirkol) em seu retorno à terra natal

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 03h00

Há algo de misantropo na arrogância do jovem Sinan de A Árvore dos Frutos Selvagens. Ele simplesmente não quer transigir com sua arte – sua literatura. Por mais que Nuri Bilge Ceylan diga que Sinan não é ele, seu projeto talvez seja tão desmesurado como o do garoto. O próprio Ceylan, na coletiva de sua Árvore, disse no ano passado, em Cannes, que talvez jamais alcance o objetivo – simplesmente colocar na tela “a verdade da condição humana”. O problema está no próprio cinema.

“Tenho de admitir que a literatura me parece muito mais poderosa, e profunda. Não vejo como o cinema possa criar outro Dostoievski pelo simples fato de que o cinema é realista demais. Na imagem concreta, ele termina por matar a imaginação. Por isso mesmo, e é o que faço, creio que o cinema não deve ser conclusivo. Como diretor/autor, penso que devo ser mais ambíguo para tentar ser profundo. Só assim vou conseguir tirar o espectador de sua zona de conforto.”

Tendo se iniciado como fotógrafo, ele sempre achou que seria fácil, ou pelo menos natural, tornar-se cineasta. “Mas o que seu sempre quis, de verdade, foi investigar a natureza humana. O que somos, por que somos, como somos. Não são perguntas nem respostas fáceis. Filmar não é fazer declarações. Não tenho certeza de nada. O máximo que consigo ser é confessional.”

Algumas das melhores e mais intensas cenas de A Árvore dos Frutos Selvagens são conversas – sobre o ato de escrever, por parte de Sinan, sobre suas dúvidas em relação aos mistérios do universo. “Por isso mesmo a trama não é o que mais me interessa nos filmes, e muito menos nos meus. Claro que as coisas terminam por fazer um sentido, eu acho, mas se me ligar só na evolução da história vou perder o melhor, que é esse elo tão tênue que se torna invisível. Um filme não se destina só aos olhos, mas ao olhar, à contemplação, o que é um pouco diferente. Quem se preocupa só com a história termina por perder muita coisa, toda a nuance nas entrelinhas.”

Ceylan não acredita na estrutura romanceada de seus filmes, como se fossem capítulos, mas destaca um aspecto curioso de seu processo. “Muitas vezes, pensando na montagem, eu tento filmar de diferentes pontos de vista, estimulando os atores a darem foco diferenciado às situações. É o que chamo de psicologia do trabalho. Estimulo-os a gritar, chorar, e eles não entendem nada e até me perguntam porque, na montagem, escolhi a cena em que riem. No fundo, é só uma questão de sensibilidade. Valorizo muito a palavra, mas a fluidez da montagem é que me permite criar o tempo e, no limite, chegar à essência do humano, tornando verdadeiras as emoções em cena.”

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