Sacred Bones Records
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Análise: A arte muito visual de David Lynch busca a profundeza do inconsciente

Cineasta faz um cinema muito pessoal e voltado (de maneira geral) para um intimismo de ordem segunda

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 06h00

A eleição de melhor filme da década (anos 2010) da revista Cahiers du Cinéma, foi vencida por uma série de TV, Twin Peaks, o Retorno, de David Lynch. Ela já havia sido escolhida pela publicação francesa como “filme” do ano quando do seu lançamento em 2017. Isso só para registrar o inabalável prestígio de Lynch entre os cinéfilos. Quer dizer, entre gente que se afasta um tanto do cinema blockbuster e do gosto convencional, em busca de formas alternativas dessa arte. 



Para esse tipo de público, Lynch jamais é uma decepção. Faz um cinema muito pessoal e voltado (de maneira geral) para um intimismo de ordem segunda. Isto é, atento menos para a consciência que para os estratos mais profundos da mente. Viaja ao inconsciente que, segundo o pai da psicanálise, Freud, “pensa” mais por imagens que por palavras. Daí a psicanálise ser próxima a artistas mais visuais, como cedo descobriram os surrealistas. Para estes, o desafio era a mente libertar-se das amarras da racionalidade e também da moral burguesa. Lynch anda por esse caminho e não me parece errado chamá-lo de surrealista tardio. 

Há um documentário revelador sobre sua trajetória, David Lynch: a Vida de um Artista. Mostra como as artes plásticas se encontram na origem da estética de Lynch, que até hoje trabalha em seu estúdio, pintando e moldando. Isto é, “pensando” com as mãos. 

 

David Lynch: a Vida de um Artista


A prática com as artes visuais está na origem desse cineasta fascinado pela mente profunda, pelos mistérios do acaso e os limites da compreensão racional. Suas entrevistas são engraçadíssimas, com ele sempre se esquivando de “explicar” seus filmes. Que cada um os entenda como quiser – ou puder. 

Lynch saiu de sua pequena cidade de Missoula, em Montana, para uma bolsa de estudos no American filme Institute, que viabilizou seu primeiro e já surpreendente longa, Eraserhead (1977). Tudo o mais seria novidade. Do extraordinário O Homem Elefante (1980), à ficção científica Duna (1984) até o policial fantástico Veludo Azul (1986), que o transformou em diretor cult. Com a primeira série Twin Peaks (1990-1991) firmou sua imagem de outsider de grande sucesso. 

Com Coração Selvagem levou uma Palma de Ouro em Cannes, marca absoluta do “autor” em nível mundial. Não deixou de surpreender em filmes como Estrada Perdida (1997), Mullholand Drive: Cidade dos Sonhos (2001) e Império dos Sonhos (2006). 

Mesmo seu filme mais linear, Uma História Real (1999), provocou polêmica. A trama, em que um homem atravessa o país num veículo improvisado para se reconciliar com o irmão, despertou dúvidas. “Onde estaria a jogada de Lynch?”, os fãs se perguntavam. A resposta parece simples: às vezes a normalidade é mais estranha do que os sonhos. 

 

Eraserhead

 

O Homem Elefante

 

Duna

 

Veludo Azul

 

Twin Peaks

 

Coração Selvagem

 

A Estrada Perdida

 

Mullholand Drive: Cidade dos Sonhos

 

Império dos Sonhos

 

Uma História Real

 

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