A arte de reinventar o Rio do século 19

'O Inventor de Sonhos' recria a cidade que recebeu a corte portuguesa

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2013 | 21h46

Quem assistir a O Inventor de Sonhos, filme em cartaz sobre a saga de Zé Trazimundo (Ícaro Silva) – um jovem filho de escrava brasileira que, em pleno Rio de Janeiro, às voltas com a chegada da família real portuguesa em 1808, busca seu pai desconhecido (um francês que voltou para a Europa) – corre o risco de sair da sessão convencido de que não há nenhuma cena de efeitos especiais, que se trata de um filme em que o trabalho de constituição de época é impecável.

Tão impecável que até conseguiu recriar o Rio real da época. De fato, a direção de arte, o figurino e a caracterização de época deste longa, o primeiro do diretor Ricardo Nauenberg, saltam aos olhos.

Mas também é fato que o trabalho da equipe de efeitos visuais de O Inventor é notável. Tanto que quase desaparece, “Hoje, muito do trabalho de uma equipe de efeitos especiais e visuais é fazer com que uma cena pareça, na verdade, o mais próximo do real possível”, comenta Nauenberg. “Assim como a história que eu quis contar, muito focada na forma como um jovem comum, mulato, um brasileiro tão típico, vê a história se passar diante de seus olhos”, completou o diretor, que para transformar Parati no Rio do século 19 contou com o apoio de Antônio Guimarães.

Foi dele e de sua equipe a tarefa de fazer com que as cenas rodadas na cidade de Parati, a única que ainda conserva em sua arquitetura urbana as características da época, fossem fundidas às cenas da paisagem do Rio de hoje. O resultado final do trabalho se nota nas imagens impressionantes de tomadas áreas do Rio, em que o casario colonial impera na paisagem que hoje está tomada por prédios.

Esse cenário foi parcialmente criado por computação gráfica e metade com cenas reais. “Para que o trabalho fosse bem realizado, montamos duas equipes. A primeira pesquisou muito como era o Rio de então, fomos buscar informações na Biblioteca Nacional, nos quadros dos pintores que retrataram o Brasil nesse período, na internet...”, explica Guimarães. “Enquanto isso, a segunda unidade recriou em 3D as ruas, bairros, mansões e casas do período. Pense que Parati é uma cidade do século 17. Mas está muito conservada, tem fios enterrados, uma arquitetura maravilhosa. Isso tudo contribuiu para a escolha da cidade”, explica Nauenberg.

Guimarães explica que uma terceira equipe, ao final do processo, texturizou e iluminou o cenário final. “Este trabalho foi incrível de fazer, pois nasceu de uma forma muito espontânea e ganhou uma dimensão muito importante”, comenta o diretor, que teve a ideia de realizar O Inventor justamente em 2008, quando se completavam 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil. “A Secretaria de Cultura queria comemorar a data e me pediu um projeto. Eu, que nunca quis filmar algo didático ou burocrático, decidi contar a história pelo viés de uma história pessoal, e não ‘oficial’”, lembra Nauenberg. “Mas, no processo, percebi que não havia nenhum material audiovisual desta fase que pudesse ficar como legado para outras gerações. Além da consultoria da historiadora Lilia Schwarcz, ter fontes como os quadros de Debret , que revelam a atmosfera da época, os hábitos, os negros, brancos, índios, que fazem uma verdadeira crônica de costumes do País, foi importantíssimo.”

“A história do Rio, da chegada da Família Real, foi uma revolução, uma loucura, mudou não só o destino do Rio como o do Brasil. E me fascina contar esta saga do Zé, um personagem tão simbólico, em meio àquela revolução. Pensar como e porque isso aconteceu sempre me fascinou”, conta o diretor. “Pense que o Rio foi invadido, teve sua população mais que triplicada, muitos tiveram suas casas invadidas e tomadas para que os nobres, que vieram com a corte, pudessem morar nelas. Foi um choque. E retratar isso com a maior fidelidade possível sempre foi muito importante para mim.”

Para pintar este Rio do século 19, Guimarães também usou como base cenas da Praça da Matriz de Parati e as modificou. “Reproduzimos um pedacinho de Parati no Rio de Janeiro, sempre ligando as cenas criadas com as passagens filmadas nos cenários reais da cidade”, detalha o diretor de efeitos visuais.

Guimarães conta que filmou a capital carioca de diversos ângulos, até mesmo da Ponte Rio-Niterói. “Fizemos um planteamento, seguimos mais ou menos uma geografia e urbanização da cidade da época, onde estavam os Arcos da Lapa, o Morro do Castelo, Santa Tereza etc. Muitas ruas foram abertas, muita infraestrutura foi melhorada com a vinda da família real. Mudou a cara da cidade, a única capital de colônia que se tornou uma matriz da história. E tudo isso graças ao Napoleão, que ameaçou invadir Portugal”, observa Nauenberg. “Neste processo, imaginamos o que uma câmera veria. o que de mais fiel se enquadraria do Rio colonial. Foram várias etapas, muita pesquisa e muita imaginação. Mas valeu a pena.”

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