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A arte de Jacques Rivette em dois filmes fascinantes

Caixa traz ‘A Bela Intrigante’ e ‘Um Passeio por Paris’, de um dos criadores da nouvelle vague, morto este ano

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2016 | 18h00

A digistak A Arte de Jacques Rivette, da Versátil, traz A Bela Intrigante (1991, 229 minutos) e Um Passeio por Paris (1981, 128 minutos). Além dos filmes, há alguns extras legais, como a entrevista com o cineasta, falando de A Bela Intrigante.

Comecemos por esta. Versão do conto de Balzac Le Chef D’Oeuvre Inconnu (A Obra Prima Desconhecida), publicado de forma avulsa e depois incorporado à Comédia Humana, pode-se dizer que é uma das mais agudas e completas reflexões já feitas pelo cinema em torno da criação artística, da paixão, da inteligência e das condições subjetivas que a cercam.

No caso, temos um velho pintor aposentado, Édouard Frenhofer (Michel Piccoli), que vive no campo com sua mulher, Liz (Jane Birkin). Há um marchand ávido por novos quadros, que para ele significariam lucro, Porbus. E um jovem casal, levado por Porbus para conhecer Frenhofer. Nicolas (David Bursztein) é candidato a artista e fã do mestre. Marianne, escritora, mulher de extraordinária beleza (Emmanuelle Béart) e bastante insegura. Saberemos depois que o marido a salvou em ocasião extrema.

O encontro é obviamente preparado para seduzir o velho mestre e fazê-lo voltar a um quadro deixado incompleto – La Belle Noiseuse, a tal Bela Intrigante que dá nome ao filme. A primeira modelo a posar para a obra fora Liz, mulher de Frenhofer. Mas, por motivos não claras, mas pouco difíceis de adivinhar, o projeto foi interrompido. Frenhofer está velho. Liz, apesar de bem mais jovem que o marido, perdeu o frescor da mocidade. Dessa forma, a presença de uma mulher como Marianne será uma tentação palpável para que o artista retome a obra.

Há, claro, alguns pequenos caprichos na ciranda em torno da obra. O marchand prepara o encontro, certo de que o velho fauno morderá a isca e não saberá resistir a Marianne. O próprio Nicolas atira sua mulher para cima de Frenhofer, vendo aí uma possibilidade de aproximação com o artista renomado. A própria Marianne percebe quanto é usada como moeda de troca. Essa consciência trará consequências interessantes para si mesma e para os outros. E há o ciúme de Liz, a antiga modelo e hoje taxidermista, que percebe o sutil élan erótico da situação.

Mas há a arte, em si. Boa parte do filme resume-se à tentativa de Frenhofer em fazer de Marianne a sua nova Belle Noiseuse. Há algo de sádico, da parte dele, e sacrificial, da dela, na maneira como se relacionam e se esgotam em nome da obra. Para mostrar as cenas de pintura, Rivette usa as mãos de um artista de verdade, Bernard Dufour. Há muitos filmes sobre pintores. A Bela Intrigante é sobre a pintura.

Um Passeio por Paris (Le Pont du Nord) contempla alguns temas favoritos de Rivette desde sua estreia em Paris Nous Appartient: complôs, diálogo com o gênero policial e, neste caso, alusão à luta política armada. Marie (Bulle Ogier) sai da prisão e, perambulando pelas ruas, conhece a jovem Baptiste (Pascale Ogier, filha de Bulle). Neste trabalho bastante experimental, é extraordinária a geografia imaginária e transfigurada de Paris. Uma poética livre e, ao mesmo tempo, rigorosa, como costuma ser a de Rivette.

A ARTE DE JACQUES RIVETTE

2 DVDs. Versátil. 357 minutos. Vídeos extras, depoimento do diretor Jacques Rivette e análises de crítico de cinema. R$ 77 

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