Marcos Arcoverde/ Estadão
Marcos Arcoverde/ Estadão

A arte de bem viver

Dois novos filmes confirmam que o tempo passa e Domingos Oliveira tem o dom de ficar

Luiz Carlos Merten/ RIO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2013 | 02h18

Pense em Platão e talvez lhe venha uma associação, O Banquete. A vida pode ser comparada a um banquete do qual, vamos pensar socialmente, muita gente foi excluída. Domingos Oliveira reza na cartilha platônica: "Não admito que ninguém diga que levou uma vida melhor que a minha." Esta é uma sexta-feira especial - para ele, para o cinema brasileiro, para os cinéfilos dispostos a se surpreender com a simplicidade, a profundidade e a inteligência. Estreiam dois novos filmes do ator, roteirista, diretor e homem do mundo. Primeiro Dia de Um Ano Qualquer e Paixão e Acaso. O repórter encontra-se com Domingos na casa dele, no Leblon. No alto da estante, na sala, um monte de troféus. Kikitos, uma Coruja de Ouro.

"Vai ser um mini lançamento porque a gente não tem dinheiro para publicidade", Domingos conta. E pede: "Me ajuda a divulgar." Mais exatamente: "Me ajuda a romper esse segredo."Passar imperceptível em São Paulo ele considera um vexame. "Não apenas para mim, mas para o cinema brasileiro." Domingos, de 77 anos - nasceu em 1936 -, irrompeu no cinema brasileiro em 1967 com um filme que, na época, virou fenômeno. Todas as Mulheres do Mundo, com Paulo José e a mítica Leila Diniz. O Cinema Novo, que ditava as cartas, era essencialmente político, queria ser revolucionário e vinha aquele Domingos falar de classe média e de sentimentos. Colaram-lhe (quem? Todo mundo) a etiqueta - alienado. "Logo eu, que sempre fui político, não a política partidária, mas engajado nas grandes questões." A maior de todas, a existencial. Muito jovem, Domingos leu Albert Camus. Ficou marcado pela questão do suicídio. "Quem não se ocupa da morte é um ignorante. Pior - um idiota."

Há cerca de 15 anos ele convive com a doença. "O Parkinson não afeta a capacidade de pensar. A gente fica até mais inteligente", brinca. Mas a degeneração motora, a dificuldade de falar é uma m... Domingos fala enrolado, ele sabe. Às vezes é preciso pedir para repetir duas ou três vezes. Nada disso impede que seja um dos mais persistentes autores do cinema e do teatro brasileiros. Tem dois filmes estreando, um terceiro praticamente pronto - Infância, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte, baseado em sua peça Do Fundo do Lago Escuro -, um livro de memórias no prelo e um novo filme para ser rodado no começo do ano que vem - e 2014 já está chegando.

O livro vai se chamar simplesmente Domingos. Ele queria que fosse O Detalhe e o Plano Geral, uma coisa de cinema. Domingos gosta de pensar a vida, a vida dele, nos detalhes, mas sem perder o conjunto. O macro e o micro combinam-se na sua visão, que não deixa de ser cósmica, do homem e do universo. O livro vai sair pela Record e o editor elogiou muito a qualidade de sua escrita. "Ele contou que tem lido trechos para amigos e todo mundo se diverte muito."

O próximo filme, já escrito, vai se chamar Barata Ribeiro, 716. É um endereço. A casa do jovem Domingos. O apartamento que ele ganhou do pai ao se casar, ainda jovem. Em Copacabana. O Rio dos anos 1960 era outra coisa. Domingos vivia na pândega. "A gente não se drogava, não cheirava. Nada de cocaína, nem maconha. Mas bebíamos industrialmente." Nós - ele coloca no plural. Domingos e seus amigos, e seu entourage. A casa vivia cheia, era um entra e sai dos diabos. "Às vezes, eu chegava em casa bêbado e não tinha onde dormir. Tinha de ir embora. A casa vivia cheia." O filme será a história dessa casa acolhedora. Outra vez a amizade, o amor, o sexo, a solidão. Domingos diverte-se contando suas histórias de boemia. Há um Domingos que vive externamente, mas há o outro, mais denso e intimista, ocasionalmente mais amargo, esse que se ocupa e preocupa com a morte. "Não tenho medo da morte, mas é um saco ter de morrer", é uma de suas máximas.

Na parede, o cartaz de um de seus lançamentos recentes na Argentina diz que o cinema de Domingos Oliveira tem a profundidade de Ingmar Bergman e a inteligência de Woody Allen. É lisonjeiro, mas ele finge que não se importa. O artista é um fingidor, Fernando Pessoa. É um mentiroso, Federico Fellini. "Desconfie do que digo e pegue a possibilidade mais extravagante. É a que tem mais chance de ser verdadeira", explica. Apesar dos elogios, seu cinema confessional não é o que mais agrada ao público. "Meu primeiro filme foi um grande sucesso, mas os outros são um fracasso atrás do outro." Ainda bem que custam quase nada.

Embora o share, a participação do cinema brasileiro no próprio mercado, seja positivo em 2013 (mais de 20%), Domingos acha que o cinema do País vai mal. "Tem muita coisa ruim, que nem consigo ver até o fim." Sua definição de um bom filme é muito particular : "É aquele que ajuda a gente a viver melhor". Seu segredo, na arte e na vida. "É uma lição de minha mãe. Termino tudo o que começo. Não deixo nada pendurado. Pode ficar uma m..., mas não vou carregar o peso de alguma coisa inacabada. A próxima pode sempre ficar melhor."

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