Fox Film
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'A animação no Brasil ainda é obra de poucos', diz diretor de 'Lino'

Rafael Ribas e Selton Mello relatam experiência na animação feita de olho na criançada, sobre homem que vira gato

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2017 | 03h00

Por mais distraído que possa ser, você com certeza percebeu que está havendo uma overdose de Selton Mello neste ano. Ele foi visto como ator em Soundtrack, é ator e diretor de O Filme da Minha Vida, que segue em cartaz, e a partir desta quinta, 7, ocupa mais de 400 salas – exatamente 439 – de todo o Brasil, fornecendo a voz ao personagem título de Lino – Uma Aventura de Sete Vidas. A animação de Rafael Ribas chega ao mercado num momento especial. Neste ano, comemora-se o centenário da animação brasileira. “Esses 100 anos se referem a um filme mítico, realizado em 1917 e do qual sobraram apenas frames. O Kaiser existe no imaginário de algumas pessoas, mas instituiu essa data, e é o que se comemora.”

Rafael prefere outra comemoração mais palpável – em agosto, completaram-se 51 anos da empresa fundada por seu pai, Walbercy Ribas, pioneiro da animação no País. 51 anos! “Meu pai foi um guerreiro da animação e largou uma carreira de sucesso na publicidade para realizar seu sonho. Eu fui muito marcado por ele, mas nunca me vi como um pioneiro. A animação no Brasil ainda é obra de poucos, mas não tenho esse sentimento heroico. Gosto de fazer as coisas. Tenho esse lado mais prático, e só lamento que as coisas sejam tão difíceis.” Rafael começou a conversar com Selton Mello sobre o projeto de Lino em 2010. Gravaram um teaser, que ajudou a vender a ideia à empresa Fox. Mas, na verdade, Lino surgiu em 2009, logo depois que Rafael lançou Grilo Feliz 2.

“O Grilo foi lançado com 110 cópias e fez 370 mil espectadores. Para mim foi um sucesso. Não sou louco de querer comparar nossas animações com as da Pixar e da Disney, que fazem milhões de espectadores. Eles (os norte-americanos) têm uma indústria da animação. Envolve milhares de artistas e técnicos, cada filme custa centenas de milhões. Lino teve um orçamento que era de R$ 8 milhões, mas fizemos o filme com R$ 6,5 milhões. Foi uma equipe pequena, num total de 47 pessoas, que já estão dispersas. Não vou negar que gostaria de fazer o Lino 2 e até que tenho algumas ideias, mas vai depender de muita coisa. A consequência é que há sempre um ‘gap’ de cinco ou seis anos entre um projeto e outro, e as pessoas se dispersam. Temos artistas, desenhistas, animadores muito talentosos. Sem mercado, vão para o mundo. Tem gente que fez o Lino e está nos EUA, no Canadá. Se houver o Lino 2, vamos ter de formar nova equipe, recomeçar do zero.”

O diretor diz isso sem tristeza – “Faz parte”. Diz que fez Lino para o mercado, e com um público alvo em mente, ‘a criançada’. “Nesse sentido, a experiência está sendo muito rica, porque já ocorreram várias sessões especiais e de pré-estreias, e o retorno tem sido bacana. Hoje em dia tem as redes sociais e as pessoas postam, mostram vídeos de crianças vidradas. Vi um vídeo que me emocionou, um menino de três anos contando o filme para o avô. Uma mãe jovem sentou-se do meu lado com a filha. A menina, no colo, começou inquieta, mas quando, na trama, a fantasia cola no Lino e ele vira gato, a menininha não desgrudou mais o olho. O filme dialoga com esse público bem pequeno. Era o que queria.”

Selton Mello tem uma longa experiência como dublador. Já dublou A Roupa Nova do Imperador e astros como Tom Cruise, River Phoenix e Ralph Macchio. Aqui é diferente. Faz a voz original. As gravações foram feitas há uns três anos. “Acho a história bonita e o Lino um personagem cativante, com quem a gente pode se identificar.” Tem algo de O Palhaço, o filme do próprio Selton. “Não havia racionalizado isso, mas o palhaço quer fugir à tradição familiar, não se acha bom. O Lino também se sente prisioneiro daquela máscara de gato, animando festas infantis. Mas tanto um como o outro descobrem as coisas boas da vida, a criatividade. Lino descobre o amor, ganha uma família. Acho aquela coisa da adoção linda”, diz Selton. Ele está feliz. O Filme da Minha Vida bateu 300 mil espectadores, e é um número bom, num ano difícil para o cinema brasileiro. Rafael Ribas não quer pensar nos números. “Com 500 mil espectadores eu já ia estourar champanhe.” O filme tem um visual bonito, é cuidado. Tem suas limitações. “O marketing da distribuidora promete um Lino fofinho, mas ele passa o filme ferrado.” A sorte está lançada. Lino tem charme. Brasilidade? “Está no fazer. A história é de aceitação, superação. É universal.”

 

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