A ambivalência na política e no sexo em 'Desejo e Perigo'

Alta voltagem erótica e solidez narrativa garantem o interesse no longa chinês do diretor Ang Lee

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2009 | 10h33

Em 2007, Ang Lee venceu o Festival de Veneza com Desejo e Perigo. O fato causou espanto, pois, dois anos antes, ele já havia levado seu Leão de Ouro por Brokeback Mountain, a história famosa dos caubóis gays. Juntava-se então ao seleto clube dos bicampeões do festival italiano, o mais antigo do mundo e dos mais prestigiosos, ao lado de Cannes e Berlim.

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Se a dupla vitória de Lee poderia causar alguma polêmica, como de fato causou, poucos se aventuraram a contestar o filme, em si, que era mesmo um dos melhores vistos na safra daquele ano. Uma história de amor, desejo e sangue, com desfecho trágico, ambientada na China ocupada pelo Japão nos anos 40 tinha, de fato, tudo para agradar. Mesmo porque, Lee vinha daquela produção norte-americana dos caubóis e regressava à sua terra como para reafirmar uma identidade chinesa que alguns já contestavam.

E o fez não apenas em termos de produção, idioma, mas do próprio estilo. Se Brokeback é enxuto na narrativa e flerta com o melodrama no estilo, Desejo e Perigo prefere a via da tragédia. E conduz o seu desfecho através de um longo caminho, nada menos do que 156 minutos, desdobrados em tempos diferentes de narrativa.

Qual a história? Um grupo amador de teatro torna-se também célula de resistentes contra os japoneses. O ocupante reprime qualquer resistência com mão de ferro. E, como costuma acontecer com os ocupantes, só pode se manter graças à colaboração de traidores locais. Um desses colaboracionistas é o poderoso Yee (Tony Leung), policial e torturador. Não há como chegar a ele, pois vive cercado de seguranças. Mas a atriz e candidata a guerrilheira Wong Chia Chi (a estreante Tang Wei) talvez consiga alcançá-lo, através das armas da sedução.

A trama é tensa, pontuada de cenas de sexo e violência. Quando lhe perguntaram pelo erotismo do filme, Lee respondeu de modo significativo: "Quis falar não tanto de sexo, mas da ambivalência fundamental do ser humano." E esta é a chave para entender Desejo e Perigo. O caráter de paradoxo do desejo, que se separa, como se fosse independente, da vontade, que é mais consciente. O desejo, que faz seu próprio caminho e não necessariamente obedece à razão. Esse desajuste vale tanto para Yee como para Chia Chi, os dois envolvidos nesse jogo de paixão, política, engano e morte.

Talvez seja este um velho tema do cinema, já trabalhado em filmes como, por exemplo, O Porteiro da Noite, de Liliana Cavani, história da ex-prisioneira de campo de concentração (Charlotte Rampling) que se apaixona pelo carrasco nazista (Dirk Bogarde). A questão incômoda: pode-se amar a quem se odeia? O gozo sexual pode passar pelo asco e pelo desprezo? São, evidentemente, questões da psicanálise, disciplina que melhor enfrentou essas contradições humanas, em especial quando se referem à sexualidade. Mas são também questões do cinema, quando levado a sério.

Isso significa que as cenas de sexo, várias e bem fortes, são todas justificadas no contexto da história, baseada em romance de Eileen Chang, uma espécie de Jane Austen chinesa. Cenas nada gratuitas. Pelo contrário. São fundamentais para que tudo aquilo faça sentido. Por outro lado, a violência, quando aparece, em nada lembra a coreografia inócua que a transforma em divertimento cinematográfico. É dura, indigesta, bruta, como aparece na vida real.

Ang Lee trabalha então no registro realista das paixões humanas para construir esse que é seu filme mais político. Mais um paradoxo. Em geral se vê o cinema político dissociado do sexo, depurado da sensualidade para se afirmar como sério. Uma espécie de "pudor" do político. Poucos cineastas conseguem ir além e traduzir a completude da ação humana, que é carne e sangue e também intencionalidade política. É o caso do melhor Bertolucci, por exemplo, em O Conformista, e agora, também, de Ang Lee.

Nessa radicalidade está o interesse maior de Desejo e Perigo. É por onde ele nos apanha, para além das qualidades mais óbvias como as de ser um filme de época rigoroso, porém nada acadêmico, magnificamente fotografado (por Rodrigo Prieto, também vencedor em Veneza) e bem interpretado. Dito isso, deve-se dizer, por experiência própria, que ganha ao ser visto pela segunda vez. Isso talvez não queira dizer grande coisa no consenso do descartável dominante. Mas, mesmo hoje, existem obras que não dizem tudo na primeira vez. Guardam algum segredo, que é também a sua força oculta.

Serviço

Desejo e Perigo (Lust, Caution, China-EUA/ 2007, 158 min.) - Drama. Dir. Ang Lee. 18 anos. Cotação: Ótimo

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