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'A Alma da Gente’ refletida como espelho

Helena Solberg, em parceria com David Meyer, assina documentário que faz justiça a seu belo título

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2013 | 19h23

Há todo um apelo – elogios e tal – para que o público veja o novo filme do norte-americano Noah Baumbach, que ocorre ser uma coprodução com o Brasil. Frances Ha faz uma interessante investigação sobre o universo da dança, é valorizado por uma excepcional interpretação de Greta Gerwig – e a atriz criou os diálogos com o diretor, o que ressalta um sentimento de urgência, digamos um verismo da realização. Tudo isso é certo, é honesto, mas não só em termos de dança – em cidadania e identidade, também –, há outro filme mais belo e mais forte que também estreia nesta sexta (23). E é uma produção brasileira, embora – olhem a coincidência – codirigida por outro norte-americano.

A Alma da Gente passou no É Tudo Verdade. Não foi premiado no Festival Internacional de Documentários de Amir Labaki, mas a própria (co)autora, Helena Solberg – que assina o filme com David Meyer –, não se queixa. “Quando a gente perde, quer pelo menos que seja para alguém merecedor de respeito e o  Mataram Meu Irmão (de Cristiano Burlan), que ganhou, é muito bom.” Helena prescinde de apresentação. A diretora de Banana Is My Business, de Vida de Menina e A Palavra Encantada. Helena possui uma história de vida – uma experiência – que adestrou seu olhar e sua sensibilidade. Ela viveu no exterior, nos EUA, e ao regressar ao País sempre quis entender esse Brasil tão fascinante e misterioso.

Em Banana Is My Business, projetou-se na mítica Carmem Miranda, que era a primeira a cantar – ‘Dizem que eu voltei americanizada...’ Depois disso, tem se indagado sobre o que é, afinal, a brasilidade. E o faz em diferentes gêneros – documentário, ficção. Pode estar falando de uma menina na passagem do Império para a República, pode estar falando de poesia. O verdadeiro assunto de Helena Solberg é sempre o Brasil. A Alma da Gente começou a nascer há mais de dez anos. Sempre ligada na questão social, ela se interessou por um projeto de dança do coreógrafo Ivaldo Bertazzo na Maré, no Rio.

Bertazzo é um artista (e profissional) respeitado, mas Helena tinha um interesse particular na história. “Ele é muito rígido em questões de disciplina e também não acredita no assistencialismo. Queria saber qual seria a reação dos jovens trabalhando com ele. Em geral o jovem é contrário a toda autoridade. Como iam reagir? E havia outra questão, a social, que nos interessa, ao David e eu. Fizemos um filme juntos no Chile, sobre os dez anos do golpe de Pinochet. Ele tem a obra dele nos EUA, eu tenho a minha no Brasil. A questão social que me interessa diz respeito ao papel do Estado. O que o Estado está fazendo pela juventude carente do País?”

Helena e Meyer filmaram, mas o material foi colocado de lado. Ela foi fazer Vida de Menina, A Palavra Encantada. A Alma da Gente permanecia lá, como uma coisa irresolvida em sua vida (e obra). Com a ajuda da montadora Jordana Berg, dos filmes de Eduardo Coutinho, Helena e Solberg revisaram o material. Cerca de 50 horas, durante as quais foi havendo uma seleção natural da garotada que participava do projeto original. “Sabe aquela coisa de que a própria câmera seleciona? Ela gosta mais de algumas pessoas. Tínhamos dez nessas condições. A Marília, que havia sido ensaiadora do Ivaldo, mantinha os contatos. Fomos atrás deles, e aí houve a surpresa dolorosa.” Restavam só nove.

Drauzio Varela teve uma participação importante no processo todo. Helena lembra – “O Drauzio diz uma coisa linda. Quando soube do projeto do Ivaldo com uma garotada da periferia, achou que os sonhos daqueles jovens seriam diferentes e se indagava quais seriam suas expectativas. O que descobriu é que, não importa o meio social, os sonhos dos jovens da Maré não diferiam dos dele, na mesma idade”. O sonho, e dez anos depois, o choque da realidade. A diretora não gosta quando lhe perguntam – quantos dos entrevistados deram certo na vida? “Não era essa a questão, nunca. Quem é o melhor bailarino? Nem fazer um documentário sobre o espetáculo do Ivaldo. Os jovens nos interessaram pela humanidade, pelas lindas pessoas que eram, e são. Acho que todos possuem muita dignidade, e nobreza. Erram e acertam, e daí? Todos enfrentamos dilemas, todos fazemos escolhas na vida. Algumas são sem volta.” Como a de Émerson, o Buiu. Helena e Meyer abrem o filme com ele. Émerson era carismático, sonhava alto – tudo no passado imperfeito.

O que ocorreu com Émerson repercute no grupo. Os sobreviventes guardam a beleza daquela experiência. E a diretora, criticando o Estado brasileiro, lamenta o desperdício humano, daquelas crianças ‘iluminadas’. A Alma da Gente é sobre perdas e ganhos. É um filme que clama por cidadania. Para Helena, tanto faz que seja documentário, ou ficção. O que ela quer é refletir o Brasil. Colocar o País e sua gente na tela. Pensar a nossa identidade (e a nossa diferença). Depois de dois documentários,  A Palavra Encantada e A Alma da Gente, ela volta à ficção com um roteiro que escreveu com Melanie Dimantas. A Visita é sobre uma mulher que volta ao Brasil depois de viver muito tempo no exterior. Outro filme sobre a própria Helena? Outro filme para colocar na tela quem ela é, e quem somos.

A ALMA DA GENTE

Direção: David Meyer e Helena Solberg. Gênero: Documentário (Brasil/ 2013, 83 minutos). Classificação: 10 anos. 

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