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A aids no registro único e exigente de Joaquim Pinto

O português cria uma obra-prima com ‘E Agora? Lembra-me’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 16h00

É uma pena que E Agora, Lembra-me, de Joaquim Pinto, que terá neste domingo, 16, sua segunda exibição no 22.º Mix Brasil, esteja tendo somente apresentações especiais na cidade. Se o filme estivesse em cartaz como lançamento comercial, seria, talvez, o melhor do ano. Como a estreia não está desenhada no horizonte, trata-se de uma raríssima oportunidade para se assistir a uma obra de exceção. Em todo o mundo, dos festivais de Locarno a Nova York, E Agora? Lembra-me tem sido uma unanimidade de público e crítica. É o representante de Portugal para concorrer ao Oscar.

Antes do Mix Brasil, o filme já passou por outra programação LGBT – a Queer Lisboa. Joaquim Pinto filma na primeira pessoa. Fez um documentário autobiográfico relatando a própria experiência como soropositivo. Há 20 anos, Pinto sobrevive ao/convive com o vírus da aids. Nesse período, tenta levar a vida e carreira de cineasta. Amigos morreram, o companheiro permanece a seu lado. Chama-se Nuno Leonel. Conversam, cozinham, passeiam no campo com os cães, fazem sexo. Joaquim Pinto não se vexa de levar sua câmera para a cama.

Numa época de invasão de privacidade, Pinto filma-se e expõe o material. Na internet, são frequentes esses registros, mas, na maioria das vezes, as pessoas queixam-se. Fotos e filmes ‘vazaram’. Pinto e Leonel não se filmaram para um registro puramente doméstico. São artistas. Ele é um autor conhecido e respeitado em Portugal. Faz cinema experimental. E Agora? Lembra-me não experimenta somente com a linguagem. O registro parece amador, mas não é precário. Pinto evoca a própria carreira. Vai à sala que exibe um filme em sua homenagem. Conversa com críticos e colaboradores.

Não é preciso evocar o Wim Wenders de Nick’s Movie, também conhecido como Lightning Over Water, quando ele filmou a agonia do amigo americano Nicholas Ray, morrendo de câncer. O cinema é veículo de vida, porque permite às pessoas e objetos ficarem indelevelmente gravados como imagens. Mas o cinema também é veículo de morte, porque na imagem eternizada, sempre igual, está a própria negação da vida. Pinto lembra-se, e toda lembrança carrega, proustianamente, a busca por um tempo perdido. Só que a experimentação com a linguagem de E Agora? Lembra-me constrói-se em torno a um outro experimento.

Há anos, Pinto realiza um tratamento com drogas experimentais para combater complicações associadas ao vírus da aids. Existe, em seu filme, a par das questões do afeto e da arte, toda uma discussão de cunho científico – sobre o tempo e a forma como o vírus atua no organismo (e a forma como as drogas impedem, ou dificultam essa ação). Abordar todas essas coisas ao mesmo tempo não é tarefa fácil, mas Pinto consegue. Seu filme tem quase três horas. Algum espectador poderá reclamar da duração, mas isso só se não entrar no clima. Do ponto de vista estético, como do humano, é algo nunca visto.

O autor filma um país primevo – Portugal rural –, mas esse país também é seu mundo interior, seus medos e angústias, e também o ‘outro’, que o completa. Nos anos 1970, Ivan Lins cantava – O amor é o meu país. É um pouco o que Pinto celebra agora. Seu tratamento clandestino, ele não o realiza em casa. Tem de pegar um avião, ir a outro país. Reclama da burocracia, mas não da sua gente, do seu torrão. E Agora? Lembra-me é da grandeza das cartas de Van Gogh ao irmão Theo. O pintor conta que pinta para minorar o sofrimento dos outros, e o próprio. Joaquim Pinto filma, mas sabe que, por mais que ame o cinema, ele não substitui a vida.

E AGORA? LEMBRA-ME

Espaço Itaú Augusta. Rua Augusta, 1.475, Cerq. Cesar. 3288-6780. Domingo, 16h, às 22 h. R$ 27.

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