Clemens Bilan/EFE
Clemens Bilan/EFE

'7 Dias em Entebbe', de José Padilha, divide opiniões no Festival de Berlim

Em paralelo à exibição do filme do brasileiro, a Berlinale conferiu o mais polêmico dos concorrentes ao Urso de Ouro: '7-July 22', de Erik Poppe, ex-fotógrafo de guerra da Noruega que recriou, em tempo real, um massacre em um camping de adolescentes

Rodrigo Fonseca, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2018 | 16h12

BERLIM - Dez anos depois de ter apresentado o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro ao Festival de Berlim, conquistando o Urso de Ouro com Tropa de Elite, o carioca José Padilha regressa ao evento alemão com mais pólvora na mão, para incendiar desta vez o conflito Israel x Palestina à força das imagens de 7 Dias em Entebbe. Poucos filmes, nesta programação marcada por longas-metragens sem sal, racharam tanto as opiniões – num caso claro de “amo” ou “odeio” – quanto este thriller baseado em fatos reais ambientado em Uganda, em julho de 1976. É lá que os terroristas alemães Brigitte (uma inspiradíssima Rosamund Pike) e Böse (Daniel Brühl) forçam o pouco de um avião da Air France da rota Tel Aviv – Paris, lotado de israelenses na tripulação. A exigência: trocá-los por palestinos que estão mantidos presos, alguns sob tortura.

“Quem disse que terrorista não é gente?”, interpelou Padilha ao ser perguntado sobre os conflitos emocionais dos personagens de Rosamund e Daniel nesta produção falada em Inglês, exibida no domingo, 18, na Berlinale fora de competição. “O que os terroristas fazem é indefensável, é crime... mas eles não são zumbis. Eles têm consciência do que fazem, por isso eu consigo acreditar que Böse oscilou em certos momentos, ou que tentava estimular debates, enquanto Brigitte era mais séria e violenta, para manter o controle da situação no avião”.

Logo de cara, vemos uma ousadia formal: o cineasta costura a narrativa em paralelo a um balé de dança contemporâneo. Eles encenam um espetáculo ligado a ideia de abrir mão de tradições conservadoras. “A posição pró-negociação com terroristas, que sempre foi difícil para políticos israelenses, ficou ainda mais complicada depois do incidente”, disse o cineasta ao Estado. “O incidente de Entebbe sugere talvez tenha afetado a disposição da direita de Israel de negociar com lideranças palestinas, mesmo que elas não estejam envolvidas com terrorismo.”

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Na ala da crítica que não gostou do filme, os motivos oscilam entre o uso de câmera lenta das cenas de ação e o tratamento acusador à política israelense, sobretudo na figura estrategista de Shimon Peres, vivido por Eddie Marsan. Ao fim da projeção da imprensa, houve quem gritasse: “Que diálogos são esses? Ridículos...”. E houve quem se incomodasse mais com o desenho político do longa-metragem, que estreia em março nos EUA. “Padilha filma muito bem, mas ele fez um retrato excessivamente pró-europeu do conflito: os palestinos são idiotizados; quem vem de Israel, meu país, é inseguro; os africanos parecem ser manipuladores”, reclamou o crítico Avner Shavit.

Na ala dos fãs do filme, elogios à sobriedade do cineasta corriam soltos, incluindo analogias com o cinema de Costa-Gavras (sobretudo Missing), diretor franco-grego que presidiu o júri da Berlinale em 2008, o ano da consagração de Tropa de Elite aqui. “Em termos técnicos, o acerto do Padilha é de 100%; e, em termos éticos, ele conseguiu, com felicidade extrema, abordar o conflito de todos os pontos de vista, sem deixar nada de fora”, disse Mahari Seghid, da Radio African Refugees. “Este filme ainda vai fazer muito barulho pelo mundo”.

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Militante de esquerda na Itália dos anos 1970, época em que 7 Dias em Entebbe se passa, o crítico Giovanni Ottone enaltecia o filme para quem cruzasse seu caminho. “A reconstituição é honesta, a reflexão é adulta e sem ideologias e, o melhor, não é um filme hollywoodiano, cheio de concessões”, elogiou o italiano, que escreve para a revista Cinecritica.

O fato de não ter dependido de Hollywood para rodar este projeto, de DNA inglês, foi um dos tópicos abordados por Padilha na coletiva: “Não é um projeto hollywoodiano por que a gente quis fugir da intervenção dos estúdios”, disse o cineasta, que lança em março a série O Mecanismo, na Netflix. “O objetivo do filme não é construir ou desconstruir heróis, mas sim mostrar a complexidade do evento e, por meio dela, debater assuntos que transcendem o que aconteceu em Entebbe. Mostramos o embate político entre Ytzhak Rabin (primeiro-ministro) e Shimon Peres (ministro de Defesa) a respeito do que fazer: negociar ou arriscar a vida de uma centena de reféns em uma operação de resgate com pouca probabilidade de sucesso.”

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Em paralelo à exibição de 7 Dias em Entebbe, a Berlinale conferiu nesta segunda, 19, o mais polêmico dos concorrentes ao Urso de Ouro: 7-July 22, de Erik Poppe, ex-fotógrafo de guerra da Noruega, que recriou, em tempo real, um massacre em um camping de adolescentes. A narrativa parece um videogame de tiro, mas, sob o virtuosismo técnico, há uma alentada reflexão sobre o avanço de novas práticas de fascismo na Europa. Até agora, os competidores que mais agradaram foram Figlia Mia, da Itália; Las Herederas, coprodução Paraguai-Brasil-Uruguai rodada por um estreante de Asunción; e La Prière, da França. Nas mostras paralelas, o boca a boca mais quente ronda o documentário Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, sobre a cantora trans Linn da Quebrada.

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