51.º Festival de Berlim começa nesta quarta

Menos glamouroso do que Cannes - o maior de todos os festivais -, menos sofisticado do que Veneza, Berlim destacou-se, nos últimos anos, por fazer a ponte entre Hollywood e o cinema de autor, abrindo espaço (e premiando) cinematografias ditas periféricas. Foi a orientação que lhe deu seu diretor, Moritz de Haldeln, que ocupava o cargo desde 1980. O 51.º Festival de Berlim, a Berlinale, como se diz, começa nessa quarta-feira ainda fiel a essa diretriz, mas ela pode mudar nas próximas edições. Haldeln está abandonando o festival e Berlim presta-lhe uma última homenagem, apresentando, este ano, uma seleção de filmes escolhida por seu ex-diretor. Ela tem o sugestivo título de Memoirs. É uma das atrações da Berlinale 2001.Tradicionalmente, Berlim é o festival que mais trata bem o cinema brasileiro . Este ano, não há filmes do Brasil na competição. Mas o País estará representado no júri (por Hector Babenco) e nas mostras paralelas. Serão três filmes na importante seção Panorama, que abriga as novas tendências (os longas Latitude Zero, de Toni Venturi, e Memórias Póstumas, de André Klotzel, o curta Palíndromo, de Philippe Barcinski), mais um curta (O Branco, de Liliana Sulzbach e Ângela Pires) na seção infantil do festival, o Kinderfilm, que atribui o Urso de Cristal, e 13 obras que serão exibidas no mercado, levadas por Tarciso Vidigal, que criou, especialmente para isso, o fundo Brazilian Cinema Promotion.Cabe ao francês Jean-Jacques Annaud inaugurar amanhã, oficialmente, fora de concurso, o 51.º Festival de Berlim, em presença do chanceler da República Federal Alemã, Herhard Schröder. Annaud, de O Nome da Rosa e O Amante, dirige Enemy at the Gates, uma evocação do cerco de Stalingrado pelos nazistas, durante a 2.ª Guerra. É parecido com o que o italiano Sergio Leone, mestre dos spaghetti westerns, planejava fazer, e certamente teria feito se não tivesse morrido em pleno trabalho de levantar recursos para a caríssima superprodução. A partir de quinta-feira, começa a maratona da competição - três filmes por dia, mais os programas das mostras paralelas e as numerosas sessões do mercado, para compradores de todo o mundo.Mesmo que Berlim não apresente tantos filmes quanto Cannes, mostra o suficiente para garantir a agitação dos críticos e jornalistas que terão de enfrentar, além de horas no escurinho dos cinemas e mais as entrevistas e o inevitável estresse de mandar correndo as matérias para seus jornais, o mau tempo que acompanha o festival desde que a comissão organizadora trocou a data de junho-julho, no verão europeu, para fevereiro, em pleno inverno, o que signfica muito frio e neve. Isso ocorreu pela primeira vez em 1978, na 28.ª edição do festival, e o objetivo, anunciado na época, era antecipar-se a Cannes, em maio, de forma a conseguir melhores filmes.São 32 filmes na seleção oficial, um deles (Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick) em homenagem ao ator americano Kirk Douglas, que receberá um Urso de Ouro especial de carreira; outro do próprio Kubrick, o mítico 2001, Uma Odisséia no Espaço, para marcar o início do século e do milênio, e um terceiro dedicado ao próprio gênio morto em 1999 - o documentário Stanley Kubrick: A Life in Pictures. Os três passam fora de concurso, o mesmo ocorrendo com o Sade de Philip Kaufman, que já estreou nos cinemas brasileiros; Super 8 Stories by Emir Kusturica, do próprio autor de Mentiras de Guerra; Thirteen Days, de Roger Donaldson, com Kevin Costner (a dupla de Sem Saída); Hannibal, de Ridley Scott, exibido no dia seguinte à estréia nos EUA; e Metrópolis - o clássico de Fritz Lang, que será exibido numa versão restaurada, sem a música tonitruante que Giorgio Moroder lhe impôs, nos anos 80.Concorrentes - No domingo, dia 18, o festival anuncia seus vencedores, numa soirée de gala após a projeção da versão restaurada e remasterizada de 2001. E ainda haverá outra homenagem, ao diretor italiano Luciano Emmer, famoso por seus documentários na época do neo-realismo. Dele, será exibido Una Lunga, Lunga, Lunga Notte d´Amore. Nomes conhecidos participam da competição - Steven Soderbergh (Traffic), Giuseppe Tornatore (Malena), John Boorman (The Tailor of Panama), Spike Lee (Bamboozled), Gus Van Sant (Finding Forrester) e Patrice Chéreau (Intimacy). Também concorrem Catherine Breillat, a diretora do polêmico Romance, agora com À Ma Soeur, outro francês, Patrice Leconte, com Félix et Lola, o belga Gérard Corbiau (Le Roi Danse) e o sueco americanizado Lasse Hallstrom, cujo novo filme, Chocolat, pode até não ser bom, mas é estrelado por Juliette Binoche e, portanto, é imperdível. A lista completa inclui filmes da Espanha, Dinamarca, Polônia, China, Coréia e Japão.Organizado pelo setor ocidental de Berlim, em plena Guerra Fria, o festival surgiu com claros objetivos propagandísticos, chegando a vetar a participação de produções de países do campo socialista. Os prêmios foram concedidos mediante votação popular até 1956, quando um júri internacional ficou encarregado de apontar os vencedores. Berlim destacou-se, nos anos 50, como o primeiro festival a premiar os novos diretores que mudavam a face do cinema naquela época. Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Roman Polanski, Jerzy Skolimowski - todos receberam seus primeiros prêmios em Berlim, que também reconheceu o Cinema Novo ao atribuir o Urso de Prata de 1964 a Os Fuzis, de Ruy Guerra. Encravado no coração da parte ocidental da cidade alemã desde seu começo, o festival mudou, no ano passado, para o auditório Stella, em Potsdamer Platz, no distrito renovado para abrigar o centro econômico da Berlim unificada.

Agencia Estado,

06 de fevereiro de 2001 | 16h49

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