4º CBC termina com criação da "Carta do Rio"

Foi um encontro tão político que a expressão "cinema americano? foi substituída por ?cinema hegemônico? no documento final. Nada expressa melhor o espírito do 4.º Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), encerrado no domingo à noite com a leitura da Carta do Rio e a eleição da nova diretoria. Sai Gustavo Dahl, que asssume a presidência da Agência Nacional de Cinema, Ancine, e entra Assunção Hernandez, produtora (paulista) dos filmes de João Batista de Andrade e Suzana Amaral. O CBC, definido no documento como ?a maior conquista (da classe cinematográfica) nos últimos anos?, reafirma-se como ?o representante do setor perante a sociedade, o governo e a comunidade internacional?.O 3.º CBC, realizado no ano passado em Porto Alegre, já havia reunido a categoria em torno de um projeto que levou à criação da Ancine. A medida provisória que criou a Agência foi um dos pontos mais importantes das discussões no Rio. A classe cinematográfica tem urgência de ver a Agência funcionando. Ainda esta semana, o presidente Fernando Henrique Cardoso apresenta os nomes para compor as três diretorias que integram o organograma de poder na nova entidade, abaixo do presidente designado, Gustavo Dahl. Os congressistas do cinema brasileiro temem que, cedendo às pressões dos lobbies e dos políticos, o presidente indique diretores que não sejam exatamente aqueles sonhados pela classe para defender seus interesses.Pois a questão do cinema não é só cultural. É econômica, também. A chamada cinematografia hegemônica pressiona nos bastidores para manter o espaço que ocupa no mercado. As redes de TV aberta também não vêem com entusiasmo os pontos da MP que estabelecem a parceria entre cinema e TV. As redes não mandaram representantes ao congresso. Os exibidores e distribuidores estiveram no Rio Othon, participando das discussões. Esse foi um dos pontos que levaram os organizadores a considerar que o 4.º CBC marcou um avanço em relação ao anterior. Convidado, o representante da Motion Pictures Association (MPA), Steve Solot, não compareceu, mas grandes distribuidores e exibidores (das majors de Hollywood e dos Multiplex) sentaram-se à mesa para discutir com produtores, diretores, trabalhadores da indústria cinematográfica, pesquisadores, distribuidores e exibidores independentes.Foram selados acordos que vão repercutir na sua vida, nos próximos meses, sempre que você for ao cinema. Na intitulada Carta de Compromisso do Curta-Metragem Rio 2001, as entidades representativas dos exibidores e dos realizadores de curta-metragem, comprometeram-se a "regulamentar, implementar, divulgar e garantir a exibição do curta-metragem brasileiro, de caráter cultural e independente, no circuito cinematográfico de exibição comercial". Os pontos acordados, que serão aplicados em caráter experimental ? ?para posterior aperfeiçoamento até a obtenção de uma sistemática que atenda aos interesses de todos?, segundo o documento ? , estabelecem que será elaborado um sistema para permitir a exibição de filmes de curta-metragem brasileiros antes dos longas estrangeiros nos circuitos associados à Feneec (a Federação Nacional de Exibidores); outro sistema permitirá a exibição de curtas brasileiros em programas específicos do formato, no circuito de associados da Abraplex (a Associação Brasileira de Multiplex). Todas as partes comprometeram-se a estudar conjuntamente, inclusive com o poder público, os meios para obtenção de recursos, sem os quais ficará mais difícil implementar o que estabelece a carta de compromisso. É uma grande vitória da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas), que possui seções regionais muito atuantes.Polêmica ? Alguns pontos estimularam discussões acirradas. As entidades estão preocupadas com a representatividade no conselho que vai assessorar a Ancine. Os exibidores estão desgostosos com o excesso de meios-ingressos previstos pela legislação atual: estudantes, aposentados e professores desfrutam do benefício. E todos se comprometeram a assumir o princípio da diversidade cultural como pedra de toque de todas as políticas pertinentes à internacionalização do produto audiovisual brasileiro e ao impacto desse processo no Brasil. O CBC entende o princípio da diversidade cultural como corolário do princípio da liberdade de expressão, indispensável à cidadania.Por tudo isso, tanto o presidente que sai quanto a que entra avaliaram como positivo o atual momento do cinema brasileiro e a inserção do CBC no processo. Gustavo Dahl vê a categoria mobilizada e atuante. Assunção está animada com a idéia de dirigir a entidade que canaliza as aspirações da classe ? ?os sonhos?, como ela diz ?, que caberá ao governo tornar exeqüíveis, por meio da Ancine e das novas atribuições da Secretaria do Audiovisual. As feministas estão vibrando. Além de Assunção, a chapa de consenso pôs Sílvia Rabello, do Labocine, como vice. São duas batalhadoras. O primeiro grande desafio de ambas será dotar o CBC de sede e estrutura administrativa. A entidade existe hoje virtualmente. Assunção pensa na forma de levantar recursos sem onerar as 29 entidades que integram o CBC e, muito menos, o contribuinte. A disposição de não ser antipático é tão forte que até levou a preocupações como a de substituir o cinema ?norte-americano? por ?hegemônico?, como inimigo do cinema brasileiro, na Carta do Rio. O 4.º CBC despediu-se com um até breve. O 5.º CBC já foi marcado para 2003, em Fortaleza.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.