"33" discute a violência da superexposição

Durante 33 dias, entre os meses de setembro e outubro de 2001, o antropólogo Kiko Goifman, então com 33 anos, procurou sua mãe biológica. Começou a busca em São Paulo, onde mora e trabalha, consultando detetives particulares. Continuou em Belo Horizonte, sua cidade natal, onde seguiu pedindo auxílio para os detetives e falando também com a mãe adotiva, Berta Cudischevitch Goifman, a irmã, a tia, a babá e o médico pediatra que teria intermediado a sua adoção. Com a ajuda da produtora Claudia Priscilla, gravou tudo com uma câmera digital e registrou suas impressões em um diário virtual, disponível nos arquivos de um extinto site de notícias. O produto final da investigação de Goifman está em 33, documentário de longa-metragem que estréia hoje em São Paulo. Formado pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em multimeios pela Unicamp, Goifman e seu sócio na produtora Paleo TV, Jurandir Müller, normalmente se ocupam da violência em seus trabalhos.Filmado em preto-e-branco e narrado em primeira pessoa, 33 tem cara de documentário e clima de filme noir. Fã de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, Goifman imprime um certo mistério à sua busca e a torna menos dramática do que poderia parecer. Não por acaso, ele decidiu fazer um diário em que descreve a evolução da investigação e suas impressões diante das descobertas que vai fazendo ao longo da busca. Essa auto-exposição, que a câmera estende para seus próprios familiares e todos que são entrevistados, é o que está, na verdade, no centro da discussão do filme. Diante disso, portanto, o argumento do exibicionismo cai por terra completamente. Primeiro, porque o filme foi visto e aprovado pelos principais entrevistados, incluindo os detetives particulares. A câmera dá igual tratamento a todos que aparecem em cena. E no documentário de Goifman, ele se expõe duplamente. Primeiro, ao decidir fazer um filme sobre sua mãe adotiva. E, em segundo lugar, ao aparecer em cena, revelando seus medos, suas angústias e suas impressões. Não é tarefa fácil se expor tanto diante de uma câmera. E Kiko Goifman o faz, com muita coragem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.