30.ª Mostra de Cinema: um raro prazer em <i>Belle Toujours</i>

Após apresentar Belle Toujours fora de concurso no Festival de Veneza, Manoel de Oliveira ganhou ovação de dez minutos. No relógio. O público ficou encantado com a continuação da história de Séverine e Husson, personagens de Belle de Jour, de Luis Buñuel. Uma senhora italiana comentou enquanto aplaudia Manoel: "Aos 97 anos, ele reabilitou a ?levitas?." Referia-se à qualidade da leveza, evocada por Italo Calvino em Seis Propostas para o Próximo Milênio. Enfim, essa é uma das qualidades, entre outras, desse grande e sintético filme de Manoel de Oliveira. A idéia, em si, já é um achado: o encontro entre a prostituta ocasional, Séverine, e um amigo do seu marido, Husson, que a descobre no bordel. No filme de Buñuel, a mulher era vivida por Catherine Deneuve e o homem por Michel Piccoli. No de Oliveira, Piccoli continua com o papel. Como La Deneuve, por razões que são só dela, recusou, Oliveira teve de substituí-la por Bulle Ogier. O filme perde com isso. Mas não se perde por isso. A questão toda se resume ao seguinte: Husson descobriu que Séverine se prostitui à tarde num bordel. Será que ele contou para o marido, e esse fato estaria na origem da paralisia dele? Bem, esse é o mistério proposto a Oliveira, e que ele repassa ao espectador. Parte do encanto do filme se encontra na maneira como trata essa questão. Com a cultura que tem e a experiência acumulada, Oliveira sabe que uma das maneiras de tratar um mistério é adensá-lo e não solucioná-lo, como pede a pressa contemporânea. Vá, portanto, preparado para isso. E para desfrutar um raro e refinado prazer do intelecto. Há espaço ainda para comentar o inquietante Eu não Quero Dormir Sozinho (Bombril 1, 22h30), de Tsai Ming Liang, também apresentado em Veneza, porém em concurso. Desta vez, Ming Liang se volta para os sem-teto, no caso, um deles, chinês, que, atacado em Kuala Lampur, na Malásia, é salvo por alguns trabalhadores de Bangladesh. Já se nota a mistura de nacionalidades que é também um comentário adicional do diretor sobre a globalização. Esse caráter, digamos, político do filme, não o faz perder o foco no aspecto humano. Interessa a Tsai Ming Liang a necessidade de afeto que as pessoas experimentam, mesmo (e talvez sobretudo) em condições de existência mais árdua. É um filme estranho, às vezes distanciado, mas também romântico e claramente apaixonado em seu final. Contém todos esses elementos, como numa ópera moderna. Belle Toujours (2006, 70 min.) - Reserva Cultural. Av. Paulista, 900, (11) 3287-3529. Amanhã (1), 18h30. Memorial da América Latina. Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, portão 12 (11) 3823-4742. Quinta-feira, 18 h

Agencia Estado,

01 Novembro 2006 | 11h01

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