2046, um filme impossível como a mulher ideal

Há uma tristeza ou impossibilidade de amar do personagem de Mr. Chow, interpretado por Tony Leung em 2046 - Os Segredos do Amor, que estréia nesta sexta-feira. É uma metáfora da tristeza ou impossibilidade de filmar do próprio Wong Kar-wai, que retoma, amplia e desconstrói sua obra-prima anterior, Amor à Flor da Pele. O filme concorreu no Festival de Cannes, em 2004. Ontem Kar-wai foi anunciado como o presidente do júri de Cannes/2006. Provocou sensação uma frase do diretor, que disse que seu filme ainda não estava pronto e era um ?work in progress?. Kar-wai, quando o filme estreou na França, declarou à revista Cahiers du Cinéma que se tratava de um caso talvez raro - um filme que poderia não terminar nunca, como se fosse um inesgotável documentário sobre a imaginação. Ele já sugerira isso em Cannes, em maio, numa conversa com um pequeno grupo de jornalistas, antes de saber que seria recompensado pelo júri presidido por Quentin Tarantino. Kar-wai é autor de dois grandes filmes - o citado Amor à Flor da Pele, com Tony Leung e a deslumbrante Maggie Cheung, e o que havia feito antes, Felizes Juntos, de novo com Leung e Tony Cheung, sobre a ligação terminal entre um par de gays. Hetero ou homo, não importa, o amor, melhor seria dizer a paixão, é sempre uma experiência visceral no cinema de Wong Kar-wai. Seu cinema é visceral. Os cinéfilos conhecem seu método. Ele escreve roteiros detalhados e só não segue fielmente porque tem o hábito de incorporar tudo aquilo que lhe oferecem os atores. Resultam filmes invariavelmente longos e é aí que começa o método Kar-wai - ele vai para a edição e começa a cortar. Desconstrói o que filmou e chega à ossatura, ao nervo. Todas as maravilhosas elipses que fazem o cinema do diretor chinês, o mais original e criativo de sua geração, nasce, em geral, da montagem. Kar-wai fala sobre 2046: "No momento em que Hong Kong foi reintegrada à China, em 1997, eu comecei a desenvolver um projeto que deveria se desenrolar 50 anos após o término da reintegração. Seria um filme sobre a promessa, construído sob o signo da esperança. E coincidiu que eu tinha esse outro projeto, ao qual não conseguia dar forma, intitulado Verão em Pequim. Esse ?sonho de filme?, cruzado com o livro Duidao, de Liu Yichang, resultou em Amor à Flor da Pele. Durante a filmagem, descobri o quarto 2046, do hotel em que Tony e Maggie se encontram, e voltei ao outro projeto, que se tornou o de um filme em dois capítulos. Mas eu não queria fazer uma seqüência - para mim, a história de Tony e Maggie estava completa. Comecei, então, a devanear, imaginando uma história sobre a relação de Tony com várias mulheres, enquanto ele busca, em vão, a ideal." Para Kar-wai, é mais fácil situar a origem do projeto do que falar sobre a forma como ele se construiu. "Não sei! Existem pelo menos quatro histórias que poderiam dar origem a um filme, cada. Imagino que seria possível projetar essas quatro histórias lado a lado. É uma idéia que pretendo desenvolver no DVD. E, de qualquer maneira, para mim, é um projeto sem fim, como uma investigação sobre a imaginação que pode ter desdobramentos infinitos. Estou convencido de que 2046 será sempre uma coisa imprecisa e inacabada, como um projeto de filme ideal inalcançável, da mesma forma Tony busca essa impossível mulher ideal." Ele considera que a decisão mais importante foi a de fazer o filme no formato scope. "Sempre trabalhei mais com elementos verticais nas cenas, mas aqui, por esse formato, tive que trabalhar muito com os elementos horizontais. Como as ruas de Hong Kong são muito estreitas, ficou mais difícil introduzir o vazio que está na essência de cada imagem." O repórter lembra Fritz Lang, que dizia que o scope só era bom para filmar caixões de defuntos ou cobras deslizando pelo chão. Ele ri, concorda e diz que não consegue segurar a câmera. "Quando peço a Zhang Ziyi a Gong Li ou a Maggie Cheung que caminhem em cena, automaticamente minha câmera as segue. Não há nada mais sedutor do que o movimento de uma bela mulher.

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