20 anos sem Gláuber: depoimentos

Paulo Autran, ator de Terra em Transe - "Trabalhar com Gláuber foi delicioso. Ele estava no auge da criatividade quando filmamos Terra em Transe, com uma lucidez e uma cultura variadíssima. Eu adorava conversar com ele no intervalo das filmagens. Aliás, Gláuber era plenamente receptivo a sugestões da equipe, sempre apostando em experimentações. Lembro de uma entrevista que ele deu, durante a estréia do filme, quando explicou o método de condução dos atores: "Eu os irritava até chegar no ponto máximo. Daí começava a rodar." Era uma grande mentira! Eu até ficava incomodado com tanta gentileza dele e da equipe. Gláuber era uma pessoa única. Não creio que deixou sucessores." Antonio Pitanga, ator de Barravento, Câncer, Idade da Terra, Jorjamado e Di Cavalcanti - "Gláuber foi um gênio, uma presença avassaladora, que criou toda uma liderança naquela época e faz muita falta hoje em dia. E isso, essa ausência de líderes, é o que mais choca nestes 20 anos de morte do Gláuber. Quer dizer, falta alguém que coloque a discussão do cinema num patamar mais alto, polêmico. Nesse sentido, ele é insubstituível, porque hoje está cada um fazendo o ´seu´ filme, enquanto Gláuber pensava o cinema coletivamente. E ele era tão clarividente que enxergou o ator que havia em Fernando Henrique Cardoso, quando o convidou para fazer um filme. Se o FHC tivesse aceito, talvez hoje fosse um bom ator, ou pelo menos nós teríamos nos livrado dele como presidente." Luiz Carlos Barreto, produtor e diretor de fotografia de Vidas Secas e Terra em Transe - "Fui à Bahia, como repórter de O Cruzeiro, para acompanhar a visita do ator francês Jean-Louis Barrault. Lá, o Genaro de Carvalho, grande artista plástico, me disse que eu não podia regressar ao Rio sem conhecer um cara genial, que estava fazendo um filme chamado Barravento. Brotou, ali, um amor à primeira vista. Nos tornamos amigos da vida inteira. Fotografei o set de filmagem de Barravento, e ele, então, começou a me atribuir tarefas cinematográficas. A mais louca foi me induzir a fotografar Vidas Secas, de Nelson Pereira. Insistiu tanto, que aceitei o desafio. E depois me obrigou a fazer o meu último trabalho como diretor de fotografia num filme: Terra em Transe, obra-prima, assim como é Vidas Secas." Bruno Barreto, cineasta - "Acho que Gláuber foi, sem dúvida nenhuma, um visionário. Não só dentro do cinema brasileiro, mas como também no mundial. Gláuber era um visionário em relação à vida. O cinema ficou muito pequeno para suas inquietações e ambições. Esteticamente, muito do que a gente vê hoje nos videoclipes, comerciais de TV e produções de Hollywood, já tinha sido feito nos anos 60 por Godard, Gláuber, Fellini e Kubrick. A montagem descontínua, os jump-cuts, o uso da câmera na mão, a utilização da música - não para sublinhar, mas para contrapor... Tudo isso que hoje é tido como corriqueiro e mainstream era audacioso e novo naquela época." Paulo Cesar Saraceni, cineasta - "A situação atual é triste. Como ele mesmo previu - era um profeta, sem dúvida nenhuma - o cinema, dos anos 80 até os dias de hoje, está voltado para o mercado, para as grandes bilheterias, o que prejudica a qualidade dos filmes em todos os sentidos. Acho que Gláuber não conseguiria ver isso. Em seu último filme, Idade da Terra (1980), ele demonstrou toda a sua genialidade e talento, um trabalho que está bem distante da realidade dos filmes produzidos hoje. E seu último filme ainda permanece incompreendido. As pessoas não se debruçam para estudar Idade da Terra, o testamento do diretor. Um filme como esse é o que falta para o cinema hoje." Sônia Braga, atriz - "Ao ser exposta aos filmes de Gláuber, o que mais me impressionou foi uma coisa que gostava nos filmes dele, mas, às vezes, detesto nos de outros cineastas: a câmera em movimento. Acho que é impossível repetir o que ele fez. Por um simples motivo: a câmera nos filmes do Gláuber estava sempre dentro do olho e do cérebro dele. Seu estilo e sua linguagem eram suas impressões digitais." Gal Costa, cantora - "O filme de Gláuber que mais me marcou foi Terra em Transe. Lembro-me de seus planos imensos, sem cortes e de uma grandeza quase assustadora. Os movimentos da câmera, as tomadas de cenas, tudo era perfeito, sem limites, assim como o som de João Gilberto. Tudo redondo e perfeito como o universo. Era isso mesmo: parecia a voz de Deus! Fui convidada por Gláuber para cantar a canção Olá, de Sérgio Ricardo, em Terra em Transe. Cantava a capela durante uma longa cena numa escada, sem cortes, absolutamente genial. Revi essa cena em Nova York, alguns anos atrás, na casa de Fabiano Canosa, e senti o mesmo impacto da primeira vez."Martin Scorsese, cineasta, em fevereiro de 2000 - "Ajudei a restaurar alguns filmes de Gláuber, pois acho o trabalho dele magnífico. Tenho cópia em película de pelo menos uns cinco títulos, entre eles, o meu preferido: O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Também gosto muito de Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol. Os filmes de Gláuber têm um sabor terapêutico para mim; quando estou meio deprimido ou completamente estressado, costumo assisti-los. Por coincidência, quando terminei de rodar Vivendo no Limite, sentei-me em minha sala de projeção particular e embarquei numa sessão de Barravento."Jonathan Demme, cineasta, em 1999 - "Não consigo explicar meu trabalho, mas posso identificar meu estilo por meio de minhas influências. De um lado, meus filmes foram inspirados pelo trabalho de Bertolucci, Scorsese e, devo dizer, Gláuber Rocha também. De outro lado, é total Hitchcock."

Agencia Estado,

20 de agosto de 2001 | 15h49

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