Daniel Daza/IFC Films
Daniel Daza/IFC Films

20 anos de ‘Y Tu Mamá También’: cineastas e atores contam como o filme mudou as suas vidas

O cineasta Alfonso Cuarón, seu irmão e corroteirista Carlos Cuarón e os atores Diego Luna, Gael García Bernal e Maribel Verdú falam sobre suas memórias do filme e sobre as mudanças que ele trouxe para suas carreiras

Carlos Aguilar, The New York Times

31 de agosto de 2021 | 15h00

O cinema mexicano estava emergindo de décadas de obscuridade quando Y Tu Mamá También, de Alfonso Cuarón, uma viagem de autodescoberta, um estudo de um país em transformação, foi lançado lá em 2001, alcançando instantaneamente o status de clássico.



Estruturado como uma viagem de carro da Cidade do México até uma praia paradisíaca em Oaxaca, o filme gira em torno de um triângulo amoroso envolvendo o adolescente rico Tenoch (Diego Luna), seu melhor amigo mais humilde, Julio (Gael García Bernal), e uma viajante espanhola, Luisa (Maribel Verdú). Ela desafia as noções de masculinidade dos garotos contra o pano de fundo de uma sociedade que experimenta a democracia pela primeira vez depois de sete décadas sob o governo do Partido Revolucionário Institucional, conhecido como PRI.

O filme, que quebrou recordes de bilheteria no México antes de estrear no Festival de Cinema de Veneza naquele mês de agosto, representou um retorno do diretor não apenas ao México, depois de uma passagem por Hollywood, mas também à sua paixão pelo cinema. E testemunhou o nascimento da gramática do cinema naturalista do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Mas o maior efeito do longa reside na abertura sexual que retratou (resultando na classificação mais restritiva do governo mexicano); no seu questionamento tácito da masculinidade tradicional numa cultura onde o machismo está enraizado; e no seu tratamento incisivo de questões de classe numa nação de desigualdades dolorosas.


 


Falei com suas estrelas e cineastas, até mesmo com Carlos Cuarón, irmão do diretor, que coescreveu o roteiro indicado ao Oscar, sobre suas memórias do filme, as mudanças que ele trouxe para suas carreiras e a recepção no México numa época em que o encontro carnal entre os dois meninos era polêmico. Aqui vão alguns trechos editados dessas conversas.


 

Onde você estava na carreira quando ‘Y Tu Mamá También’ aconteceu? Foi um ponto de virada?


ALFONSO CUARÓN: Naquele momento, eu tinha deixado a indústria me seduzir e foi aí que minha confusão começou, porque eu me esqueci do cinema. Esse negócio de que a indústria corrompe você é um mito. É você que se corrompe. Fazer meu primeiro filme em Hollywood, A Princesinha, foi maravilhoso. Mas aí fiz outro filme, Grandes Esperanças, que nunca entendi. Comecei a assistir muitos filmes que amava. Foi quando liguei para meu irmão e disse: “Vamos escrever um filme”.

CARLOS CUARÓN: Y Tu Mamá También foi uma ideia conceitual que Alfonso e eu tínhamos antes mesmo de seu primeiro filme, Sólo Con Tu Pareja. O filme é inspirado naquele tipo de viagem que fazemos quando somos adolescentes. O que nem meu irmão nem eu fizemos foi viajar com uma bela espanhola. Trabalhamos nisso por uns dez anos, separados. Mas aí um projeto muito bom que Alfonso tinha nos Estados Unidos desmoronou e aqui no México o que seria meu longa-metragem de estreia também desmoronou. Alfonso morava em Nova York e me ligou. “E se a gente fizer Y Tu Mamá También?” Voei para Nova York usando suas milhas de passageiro preferencial e começamos a trabalhar.

DIEGO LUNA: Foi a primeira vez que percebi que poderia ter um alcance que eu não imaginava ser possível. Cresci basicamente no teatro mexicano e pensando principalmente no contexto da minha comunidade. Mas Y Tu Mamá foi como um despertar para mim. O que mais me impressionou foi a distância que se abriu entre minha família e meus amigos depois desse filme. Comecei a trabalhar em outros países, a passar longos períodos fora de casa, a ponto de questionar onde realmente era a minha casa. Pode ser emocionante, mas também foi angustiante porque você se sente perdido, como se não pertencesse a lugar nenhum.

GAEL GARCÍA BERNAL: Quando fiz Amores Perros [seu primeiro filme, em 2000] descobri esse universo sem saber nada sobre a loucura do cinema. Com Y Tu Mamá También, Alfonso estava num momento da vida em que era muito aberto a incluir nós atores em todo o processo por mais de um ano. Aprendemos o básico do cinema! O que levei comigo para todos os filmes que faço é que o requisito mais importante é existir um senso de fraternidade como o que tínhamos naquela época.

MARIBEL VERDÚ: Trabalho desde os 13 anos, então teria continuado trabalhando na América Latina e no meu país de qualquer maneira, mas graças a Y Tu Mamá También fiquei conhecida no exterior. Não foi só porque ganhei reconhecimento internacional por qualquer outro filme, mas sim porque foi com este filme de tanto prestígio e significância. Conheci o México graças a ele e acabei fazendo outros filmes com diretores mexicanos.



 

Na sua opinião, quais são os motivos que fizeram de ‘Y Tu Mamá También’ um sucesso?


ALFONSO CUARÓN: Uma parte é óbvia. Colocar adolescentes em situações que incluem sexo sempre será atraente para determinado público. Mas espero que Y Tu Mamá También tenha transcendido isso, porque nos propusemos a não ser American Pie. Queríamos que as cenas de sexo falassem algo sobre os personagens e sobre os elementos sociais com os quais estávamos jogando, como as classes sociais e as concepções de masculinidade que eles tinham.

CARLOS CUARÓN: Aquele retrato da adolescência, com seus fracassos e virtudes, o narrador que não narra, mas contextualiza as coisas e nos ajudou a evitar cenas explicativas, a enorme química entre Diego e Gael, o contraponto que Maribel proporcionou... foram alguns dos muitos fatores. Nenhum de nós que fez o filme pensou que faria tanto sucesso. Quando escrevemos o roteiro, não sabíamos quem ousaria fazê-lo.

DIEGO LUNA: É um ótimo filme, claro, mas nem todos os grandes filmes chegam no momento certo. Y Tu Mamá También teve muita sorte. Encontrou um público que precisava de uma jornada como a que o filme propõe. O filme fala de relacionamentos fundamentais e é muito fácil se identificar com o que acontece na tela. É também um filme que retrata um México que antes parecia escondido. A maneira como ele retrata a desigualdade econômica e o conflito de classes foi muito dolorosa para algumas pessoas naquela época. Eu me lembro de muita gente reclamando: “Por que vocês mostram o México desse jeito?” Mas, ao mesmo tempo, o filme retratou a beleza que o país tem a oferecer.

GAEL GARCÍA BERNAL: O filme gerou uma cisão no público mexicano. Muitas pessoas se conectaram positivamente, mas ele também irritou os puritanos. Alguns públicos projetaram certo desconforto com a abertura sexual ou com o fato de o filme abordar temas gays de maneira ambígua. Tudo isso abriu um diálogo. Fora do México o que transcendeu foi o desejo de viver que este filme instila nas pessoas. Quando você sai do cinema, quer ir para a praia e embarcar numa aventura maluca.

MARIBEL VERDÚ: Acredito que seja autenticidade. É um filme que parece documentário. Parece algo improvisado, mas há muito trabalho por trás disso. Existem ensaios para deixar tudo bem acertado, mas para fazer parecer que tudo estava simplesmente acontecendo na nossa frente. É uma coisa muito mágica e o público sentiu isso também.


 

Agora estamos reavaliando a masculinidade. Naquela época, você estava pensando no que a relação desses dois jovens dizia sobre o tema?


ALFONSO CUARÓN: Conversei muito sobre isso com o Guillermo del Toro, com o Carlos e o Chivo [Emmanuel Lubezki]. Seria pretensioso dizer que as discussões eram sobre masculinidade, porque essas conversas vêm acontecendo mais agora, mas, sem usar essa linguagem, estávamos tentando explorar o tema. Em algum momento, isso fica mais óbvio. Chega uma hora em que Luisa diz a eles: “A única coisa que vocês querem é fazer sexo um com o outro”.

CARLOS CUARÓN: Eu me lembro claramente que, na estreia na Cidade do México, as pessoas xingaram e assobiaram quando Diego e Gael se beijaram. Durante essa estreia, um amigo gay, diretor de teatro e cinema, disse: “Obrigado por mostrar claramente, pela primeira vez, a imagem do macho mexicano”. Perguntei o que era essa imagem e ele disse: “Julio e Tenoch se beijando”.

DIEGO LUNA: Sempre dissemos que estávamos fazendo uma história de amor entre os dois homens. Nos debates sobre o final, as pessoas queriam que rotulássemos o que significava. O filme sugere coisas, mas deixa a decisão para o público. É o que bons filmes fazem. Eles fazem perguntas. Não dão respostas.

GAEL GARCÍA BERNAL: Os anos 2000 foram um divisor de águas. A juventude da época, na qual me incluo, passou a ter uma visão muito diferente do sexo e as linhas de divisão entre os gêneros foram desaparecendo, porque a masculinidade estava e está numa crise tremenda. Estou convencido de que este filme não poderia ter sido feito nos Estados Unidos. No México, temos mais liberdade de expressão no cinema porque podemos montar as coisas de forma mais independente.

MARIBEL VERDÚ: Nesse aspecto, o filme estava à frente de seu tempo. Mostra coisas que ninguém fazia naquela época. Ninguém se atrevia.  


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.