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'15h17 - Trem para Paris' revê drama de americanos que impediram um ataque terrorista

Filme dirigido por Clint Eastwood traz Anthony Sadler e Alek Skarlatos nos papéis deles próprios

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 06h00

Quase nonagenário - completa 88 anos em maio -, Clint Eastwood tem uma das mais extraordinárias trajetórias do cinema americano contemporâneo. Nos anos 1960/70, tornou-se objeto de ódio das feministas por sua representação do macho - a série Dirty Harry, em que o herói porta o trabuco Magnum 44. Com o tempo, a imagem foi sendo matizada e Clint tornou-se um autor aclamado, com direito a dois Oscars de filme e direção, por Os Imperdoáveis e Menina de Ouro. Nem por isso é uma unanimidade. Há quatro anos, Sniper Americano foi recebido a pedradas pela maioria da crítica. Seria um Clint militarista e patrioteiro, quando, na verdade, é uma releitura do clássico Rastros de Ódio.

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John Ford, o Homero de Hollywood, contou a odisseia dos mais diferentes grupos de desenraizados, mas justamente The Searchers - título original - narra a tragédia de um individualista. Sniper retoma um personagem similar para fazer a antiepopeia da guerra. O retrato doloroso de um solitário. Seu novo filme, 15h17 - Trem para Paris, que estreia nesta quinta, 8, pode até parecer provocação. Um filme de homens no Dia Internacional da Mulher? Não é bem o caso, mas cabe ressaltar que até The Guardian, geralmente pró-Clint, o acusa de haver feito seu filme mais ‘dull’. Maçante? Pode-se vê-lo por outro viés.

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Clint volta à vertente ‘cristã’ de Gran Torino, um de seus filmes mais belos, mas o que ele faz, de verdade, é uma nova versão de Sobre Meninos e Lobos, com a diferença de que o longa de 2003, adaptado de Dennis Lehane, foi um estrondoso sucesso de público e crítica, puxado pelo Oscar de ator para Sean Penn. Sobre Meninos e Lobos era sobre esses três garotos. Quando crianças, um deles sofreu abuso e os outros dois foram impotentes para impedir que isso ocorresse. Toda a vida adulta do trio é marcada pelos desdobramentos dessa verdadeira tragédia, a pedofilia. 15h17 - Trem para Paris é agora sobre outros três garotos, os desajustados da escola, que se unem para se fortalecer.

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Sofrem bullying - dos colegas, dos professores, do diretor - e se refugiam num mundo de fantasia. Brincam de armamentos, de guerra. De cara, a pergunta que não quer calar - Clint rendeu-se à Associação do Rifle? Virou seu porta-voz, substituindo o falecido Charlton Heston? Não é por aí. O interessante é que dois dos garotos são filhos de mães solteiras, que chegam a ouvir do diretor da escola católica que a solução para esses meninos seria que fossem entregues à tutela dos pais. Nada mais representativo da sociedade falocrática. Embora sejam três, um termina virando protagonista - Spencer Stone. Ele tenta o Exército, tenta o Para-sar, mas é recusado. Na escola militar, é ridicularizado por reagir com uma caneta a um suposto ataque terrorista. E, quando tenta fazer um salvamento - num boneco -, tem de ouvir da professora um irônico “Parabéns, você acaba de matá-lo”.

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Mesmo assim, Stone é movido por uma espécie de fé e diz ao amigo, que o acompanha na viagem à Europa, que tem a sensação de estar indo ao encontro de seu destino. O amigo brinca - “Que barato é esse que você está fumando?” De novo unidos, os três embarcam no fatídico trem das 15h17 para Paris. Há um atentado. Todo mundo foge, salve-se quem puder do atirador solitário - o lobo. Só Stone o enfrenta, e os amigos o acompanham. Viram heróis, contra tudo e todos, contra eles mesmos, que aos olhos da ‘sociedade’, não seriam os mais indicados. A história é real, como a de outros filmes na carreira de Clint, e a grande novidade é que, dessa vez, ele não recorre a astros para escalar o trio principal. Os atores são não profissionais, Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, que viveram o episódio real e agora o reconstituem para a câmera. É um trabalho vigoroso de direção, e interpretação, mas há os que o veem como maçante.

Tudo isso, admita-se, tem tornado o filme controverso. Há a figura do terrorista, que o filme não mostra até um momento-chave. Há a religião - Clint chega a invocar a Oração de São Francisco, ‘Onde haja ódio permita (Senhor) que eu semeie amor” -, mas Stone, até mais que os outros, vive em litígio com ela. Crítico ou hagiográfico? O filme termina com uma parada, mas antes disso o próprio presidente François Hollande já fez um discurso humanitário sobre esses jovens que atenderam ao chamamento. Num mundo polarizado pelo egoísmo e individualismo, eles pegam juntos. A camaradagem prevalece, mesmo que a cena evoque Hitchcock, Cortina Rasgada. Lá, era difícil matar um homem. Aqui, prendê-lo com as mãos nuas, sem nenhuma outra arma. Clint, um republicano que não apoia Trump, incorpora o discurso de um socialista. É por isso que os franceses o adoram.

 

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