Jeanne Lapoirie
Jeanne Lapoirie

'120 Batimentos', de Robin Campillo, fala sobre a devastação da aids

Longa era o favorito de Pedro Almodóvar para a Palma de Ouro de Cannes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2018 | 19h49

Foi logo depois do Natal, no dia 26, que Robin Campillo conversou pelo telefone, de Paris, com o Estado. “Se cair (a ligação), chame de novo, porque estou no metrô e é fácil perder a conexão”, avisa o diretor e corroteirista de 120 Batimentos por Minuto. Desde a sua apresentação em Cannes, no ano passado, o filme tornou-se um dos favoritos à Palma de Ouro. No final, levou o Grande Prêmio do júri, a Palma foi para The Square - A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund. Ambos estrearam nesta quinta-feira, dia 4, nos cinemas brasileiros.

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O longa 120 Batimentos era o favorito do presidente do júri, Pedro Almodóvar. Na coletiva de apresentação dos jurados, o autor espanhol disse que seria um presidente democrático, e que não tentaria impor sua vontade. Pode ter-se arrependido. Na outra coletiva, pós-premiação, chorou ao falar do Grand Prix. O italiano Paolo Sorrentino parecia muito mais à vontade. Tem a cara de ter sido o articulador da vitória de The Square, que dialoga com seu cinema muito mais do que com o de Almodóvar.

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Robin Campillo inspirou-se na própria experiência no Act Up Paris, nos anos de 1992 a 94. Era o auge da epidemia da aids e o Act Up militava por políticas públicas, cobrando educação e prevenção do governo, dos laboratórios, da própria sociedade, que segregava a doença aos grupos de homossexuais, e a uma alegada promiscuidade dos gays. “Há mais de 20 anos tentava fazer esse filme. Na época, já havia tentado, com roteiros que não foram adiante. Acho que precisava de distanciamento, e tem mais. Vivemos uma época de egocentrismo, em que é preciso retomar, na arte e na vida, a importância de projetos coletivos. E, sim, as pessoas estão se esquecendo do perigo. Depois de décadas de recuo, os números da aids voltaram a crescer, e entre jovens.”

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Campillo lembra que, embora próximo de dirigentes do Act Up, como Cleews Vellay e Didier Lestrade, ele era muito jovem e não tinha projeção no grupo. Não estava na linha de frente, brigando nas assembleias. “Pareciam reuniões de estudantes, todo mundo expondo seu ponto de vista, aprendendo, contestando. Dizíamos que nossa política era na primeira pessoa.” Sendo um filme coral, Campillo preocupava-se com a construção de tantos personagens. “Thibault, o presidente do Act Up, sou eu. Quando dirigia Antoine Reinartz, discutindo a cena, a entonação, podia sentir o mimetismo. Não sei como, mas o personagem saiu próximo de como eu era, na época.” Tirando Adèle Haenel, ninguém é muito conhecido. “E são todos gays ou bissexuais, o que despertou muito forte em todos a militância, nesses tempos homofóbicos que vivemos.”

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Para Campillo, era importante agregar, trabalhar com atores estrangeiros. “Havia visto Nahuel (o argentino Nahuel Pérez Biscayart) em pequenos papéis e era um ator que me encantava, muito barroco. Sentia que, através dele, de sua cólera, poderia passar a angústia da doença, o medo.” Campillo criava as cenas, os atores improvisavam e assim surgiam os diálogos. Vem daí o sentimento de urgência que tanto sensibiliza as pessoas. “Ainda não encontrei nenhuma plateia imune ao filme. Todos carregamos nossos mortos. Ao ativar minhas lembranças, o filme ganhou um aspecto proustiano. O tempo reencontrado. O público sente isso. E nós continuamos precisando da militância e da solidariedade para outras causas.”

ENTREVISTA - NAHUEL PÉREZ BISCAYART - ATOR

O argentino Nahuel Pérez Biscayart esteve no Festival do Rio para apresentar 120 Batimentos por Minuto. Jeito de garoto, o ator de 31 anos foi aplaudido de pé pelo público.

Como ganhou esse papel maravilhoso?

Pois é, como você diz. Maravilhoso. Robin (Campillo) queria um ator estrangeiro. Havia me visto em algumas pequenas coisas que fiz, e me escolheu sem vacilar. Robin diz que sou um ator ‘barroco’ e o personagem é carismático. Sean é radical. Ao mesmo tempo que teme a doença, ele quer afirmar a vida. Catalisa os demais.

Campillo reuniu um grupo especial para fazer um filme militante. Como foi?

Mágico. Robin não queria atores fazendo papéis e, por isso, escolheu um elenco predominantemente gay para destacar o comprometimento. Mas, no fundo, como ele diz, essa história é universal. Mostra como o engajamento é importante, a solidariedade, a união. Não importa a causa.

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