10ª Cine Ceará: bons filmes e pouca audiência

Com um retrospecto de bons, mas não excepcionais filmes, o 10.º Cine Ceará entra em sua fase final de competição. Já foram exibidos quatro dos cinco longas-metragens da mostra Novos Talentos (reservada a cineastas com até dois longas em seus currículos): Garagem Olimpo, Glória, Jeanne e o Rapaz Maravilhoso e O Dia da Caça. Falta o cubano Um Paraíso sob as Estrelas. Nenhum deles, diga-se, foi até agora muito bem recebido pelo público. Mesmo porque há pouco público para vê-los quando passam, na última sessão da noite no Cine São Luiz, que tem estado às moscas depois das 22 horas, que é quando os longas-metragens começam a bater na tela.Essa falta de diálogo dos longas estrangeiros com o público da cidade parece ser um dos problemas do festival. No entanto, esse mesmo público acorre em massa durante a projeção de curtas-metragens brasileiros, o que deve querer dizer alguma coisa. Por exemplo, que nem sempre a exibição de curtas representa uma tortura para o público, como em geral os exibidores querem fazer acreditar. Em todo caso, o nível de qualidade desses longas tem-se mantido acima da média. O argentino Garagem Olimpo, de Marco Bechis, foi o que mais público atraiu e isso apesar de sua temática aparentemente indigesta - os porões da ditadura militar e a tortura de presos políticos. O filme, que alterna cenas de violência com outras de thriller, tem bom ritmo e, embora nada acrescente em termos da denúncia de atrocidades, passa direitinho o seu recado de indignação. Bechis sabe do que está falando. Chileno, foi preso e torturado na Argentina durante o governo do general Videla. Conheceu, in loco e na pele, a truculência das prisões do regime militar argentino. Português - Glória, da portuguesa Manuela Viegas, tem uma trama sensível, mas de difícil compreensão. Conta a história de duas crianças que vivem numa cidadezinha isolada onde tudo respira decadência, da estação de trens semidesativada à casa em ruínas onde vivem. Os diálogos são praticamente ininteligíveis e confirmam, mais uma vez, que filme português precisa ser legendado, embora isso soe como piada de mau gosto. Além do mais o péssimo som do Cine São Luiz não ajuda em nada a compreensão de um idioma estrangeiro.A precariedade do sistema sonoro do São Luiz também atrapalhou o simpático musical Jeanne e o Rapaz Maravilhoso, do francês Olivier Ducastel, com a dupla Virginie Ledoyen e Mathieu Demy (filho do diretor Jacques Demy) fazendo o par romântico. A história é a de uma garota namoradeira que um dia encontra um grande amor. Vivem dias de sonho até ela descobrir que ele é soropositivo. Há momentos líricos interessantes, entremeados por outros de tédio, pois é difícil sustentar um filme do gênero com músicas de qualidade desigual. Mas a impressão geral é favorável.Festivais tendem a repetir seus repertórios. Assim, o Cine Ceará reapresentou curtas de boa qualidade já vistos em outros eventos do gênero, como são os casos de Texas Hotel, de Cláudio Assis, Passadouro, de Torquato Joel, e Rota de Colisão, de Roberval Duarte. Conseguiu, porém, algumas novidades de interesse, como Outros, de Gustavo Spolidoro, Nélson 40 Graus, de Carlos Sanches, e Aldeia, de Geraldo Pioli. O formato curta-metragem, em vídeo ou em película, continua sendo uma reserva de criatividade em tempo de marasmo quase geral.Quase porque, fora de concurso, foi apresentado Estorvo, de Ruy Guerra, um excepcional exercício de rigor e ousadia formulado por um cineasta já consagrado. Será preciso voltar com mais serenidade sobre essa adaptação para o cinema da novela de Chico Buarque, tão incompreendida em Cannes, talvez justamente porque seja radical quando o que prevalece é uma, por assim dizer, estética do requentado e do bonitinho. Por ora, basta dizer que o filme é, entre outras coisas, exemplo do que deveria ser a adaptação de um livro - atém-se ao espírito da idéia transmitida pelo escritor, mas a transforma necessariamente em outra coisa, porque a linguagem do cinema é diferente.No caso, Guerra exacerba essa diferença, com um trabalho de câmera alucinado que reproduz na tela o universo kafkiano evocado por Chico Buarque. Estorvo é, sem lugar para dúvida, o filme mais importante deste festival que, no entanto, será encerrado pela agradável comédia Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington. Série - O documentarista Geraldo Sarno começou a apresentar, neste Cine Ceará, a sua série A Linguagem do Cinema, que deverá ter importância para a memória e a reflexão do cinema brasileiro.Serão 56 vídeos, trazendo entrevistas nas quais realizadores relembram suas carreiras e teorizam sobre o processo de criação. Os três primeiros da série, apresentados em Fortaleza, são dedicados ao cineasta Carlos Reichenbach, Ruy Guerra e à dupla Walter Salles e Daniela Thomas. Sobre o programa consagrado a Reichenbach, Sarno diz que procurou recriar "essa trajetória singular, tão própria da carreira de um cineasta do Terceiro Mundo, rica e cheia de percalços". Para ele, esse tipo de informação pode ser particularmente útil para as novas gerações, que começam agora a fazer cinema.

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