"1,99", um supermercado de idéias sobre o consumo

Marcelo Masagão define 1,99: "Meu filme tem 80 atores e uma só personagem, a música de Wim Mertens." Ele também acha graça quando alguns críticos reclamam da falta de dramaturgia - "Mas o filme é conceitual!", exclama. Masagão virou um fenômeno do cinema brasileiro. Na 2001 Vídeo, o proprietário Frederico Botelho já disse que Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos, o primeiro longa do diretor, nunca parou de vender. "Todo dia tem gente querendo comprar o filme", conta. Tanto interesse pela obra de um autor que já teve fama de maldito pode agora redobrar - graças à Petrobrás e à Sabesp, Masagão conseguiu uma verba de patrocínio para o lançamento de 1,99, o que não teve nos filmes anteriores. O filme estreou na sexta-feira.Você já deve ter visto os outdoors espalhados por São Paulo contando o que ocorre com os espectadores do filme-ensaio de Masagão. Um ficou três horas sem falar, outra começou a fazer sexo sem parar, outra, ainda, brigou com o pai. São frases de efeito para dizer que o público se arrisca a viver uma experiência radical assistindo a 1,99, mas também estabelecem uma relação de fetiche do espectador com o filme. Nada menos casual - o fetichismo está na essência de 1,99. Ex-militante trotskista, Masagão um belo dia parou para pensar sobre o que estava ocorrendo com as pessoas da sua geração, a todos aqueles que, como ele, um dia pensaram até em pegar em armas para mudar o mundo. "Viramos consumistas", resume. Para refletir sobre o fenômeno, ele se associou ao roteirista Gustavo Steinberg. E começaram a trabalhar num projeto para discutir o fetichismo do ato de consumir.É um cinema de difícil classificação, o de Marcelo Masagão. Sua visão fragmentada é uma coisa que vem do documentário - e alguns de seus filmes se assemelham a documentários -, mas Masagão prefere definir seu cinema ensaístico como "documentado". Ele se documenta para fazer seus (falsos) documentários com atores. Está pesquisando para o próximo filme, que vai tratar de psicóticos, mas anuncia que não vai colocar nenhum doente diante da câmera. Tudo será criado e recriado com atores.Antes de chegar ao supermercado de 1,99, Steinberg e Masagão pensaram em fazer um filme sobre uma rua próxima à antiga Água Espraiada, que começa numa favela, com barracos, atravessa uma zona de classe média para chegar a casas de gente muito rica. Toda a desigualdade social do Brasil contemporâneo encontra-se aí resumida num só espaço urbano. Desistiram dessa idéia, entre outras coisas porque a rua era muito feia, mas chegaram à conclusão de que o supermercado era o espaço ideal para o que queriam dizer, por ser democrático. "Todo mundo consome, desde um cestinho com algum item básico até carrinhos atulhados de supérfluos." E criaram o supermercado de 1,99. É um supermercado que vende conceitos e idéias. Todo branco, suas estantes têm apenas caixas com rótulos, onde você pode comprar desde comida até "felicidade".Masagão explica o conceito de 1,99 - "Nasceu de uma briga entre a sociologia e a psicanálise." A primeira se constitui na matéria-prima das reflexões do roteirista. A segunda é a sua praia. E ele acha que aqui se despede do seu trotskismo, pois o filme não é comunista nem católico, no sentido de vender palavras de ordem. É um filme em aberto, no qual o espectador fica livre para criar. Não existe história, não existem dogmas, nem mesmo oralidade - o filme não tem diálogos -, só a linguagem audiovisual da música e da imagem. Isso cria uma espécie de hipnotismo. Há espectadores que choram, há outros que viajam para construir interpretações muito pessoais, que jamais poderiam entrar nas cogitações do diretor. Toda essa combinação de música, de branco, de ausência de oralidade, de história, predispõe o espectador a uma vertigem. Masagão não permitiu que ninguém visse o filme em cópias de vídeo. 1,99 foi feito para o cinema, para a tela ampla, o som Dolby. "A magia do cinema é fundamental", diz.

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