"1,99" faz crítica radical ao consumo

Marcelo Masagão viu Meu Tio, de Jacques Tati, durante o processo de preparação de 1,99, seu intrigante filme exibido no Festival do Rio 2003. Masagão foi artista plástico, antes de tornar-se cineasta. Assina também a direção de arte de 1,99. O filme tem um subtítulo: Um Supermercado de Idéias. Masagão imaginou um espaço clean, onde os consumidores encontram somente caixas - o mesmo tipo de caixa - com diferentes inscrições. Sexo, desejo, felicidade, etc. A influência de Tati, o criador de M. Hulot, é transparente, mas diante de 1,99 é possível pensar em outro filme francês - Meu Tio da América, que Alain Resnais fez baseado nas teorias de Henri Laborit sobre comportamento humano.Masagão jura que não viu Meu Tio da América nem pensou em Resnais. No filme do diretor francês, homens e mulheres reagem como ratos de laboratório a determinados estímulos, o que permite ao cineasta discutir as idéias do cientista. Em 1,99, a influência parece evidente o tempo todo, apesar do que diz o diretor. Numa cena, um personagem pega uma caixa sem inscrição e dentro dela há um rato como os de Resnais e Laborit. Mera coincidência? 1,99 talvez seja o mais radical e o mais original filme brasileiro da safra recente. Vai reabrir a polêmica em torno de seu autor. Há um caso Masagão no cinema brasileiro. E não há meio-termo na avaliação desse caso: é amado ou odiado.Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos desenvolve teorias de montagem do russo Dziga Vertov, que Masagão aplica sobre material que não foi captado por ele. O que resulta é um documentário autoral como poucos. A imagem pode ser de arquivo, captada por outro. O filme, a montagem, é de Masagão. Até o mestre Eduardo Coutinho, que faz um cinema completamente diferente do de Masagão, acha que Nós Que aqui Estamos possui coisas muito interessantes. O público, nem se fala. Desde que o filme saiu em vídeo - não foi lançado em DVD por uma questão de direito das imagens -, transformou-se em recordista de vendas da rede 2001. Não há um só dia, nos últimos três anos, em que não tenha sido vendida pelo menos uma cópia do vídeo. "Na verdade, é uma e meia", corrige o diretor.Seu novo filme discute o consumo. É mais um docudrama do que um documentário. Masagão não acredita em entrevistas filmadas. Acha que, todo mundo, no fundo quer aparecer. Faz extensas pesquisas, mas prefere usar atores. Dedica o filme à mulher, que é psicanalista e foi sua consultora. "Minhas fontes foram Freud e ela; aliás, foram Lacan e ela." Não há um diálogo em 1,99 e toda palavra que aparece é impressa. Masagão prossegue com seu audacioso projeto de fazer filmes sem centro narrativo. 1,99 custou R$ 720 mil. Foi filmado durante 12 dias num hangar transformado em estúdio. O processo todo, da preparação à primeira cópia, demorou dois anos. Sem desenvolver uma dramaturgia tradicional, Masagão conseguiu falar sobre o consumo como um mal contemporâneo e sobre a exclusão social. 1,99 prova que com pouco dinheiro podem fazer-se filmes de visual elaboradíssimo. E há o fascínio da música de Wim Mertens. 1,99 reinventa a noção da obra aberta de Umberto Ecco. Masagão cobra, a toda hora, como num contrato, a participação do espectador. O diretor surpreendeu-se com o fascínio que seu filme despertou principalmente sobre pessoas que fazem análise. Sabe que não trabalha com um tipo de material que favoreça a unanimidade. Prefere o ódio à indiferença. No meio da sessão da noite, na sexta-feira, um espectador indignado gritou bem alto que o filme deveria ser enfiado... você sabe aonde. Masagão não se incomoda. "Até quem não gosta tem de tomar partido, e radicalmente."

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