François Ozon e as novas leis do amor e do casamento

François Ozon e as novas leis do amor e do casamento

Diretor fala de ‘Uma Nova Amiga’ e do prazer de dirigir a nova Huppert

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 03h00

Ao longo de sua carreira, François Ozon tem colhido grandes êxitos de público e crítica, e muitas vezes, senão sempre, com filmes transgressivos. Com Jovem e Bela e Uma Nova Amiga, que estreou quinta, 16, fez 700 mil espectadores (cada um). Ozon já obteve números muito maiores, na casa dos milhões. Ele reflete – “É muito bom para filmes pequenos, autorais, mas no caso de Uma Nova Amiga talvez esperasse um pouco mais. Romain Duris, afinal, é muito considerado na França.” Romain Duris faz o protagonista masculino, David. É o marido da amiga de Claire (Anaïs Demoustier), que, quando o filme começa já está morta. “Anaïs é muito talentosa. Na França, já está sendo chamada de nova Isabelle Huppert. Gostei muito da parceria com ela.” Na trama, Claire, que prometeu, no funeral da amiga, tomar conta do marido e de sua filha, faz uma descoberta surpreendente sobre o comportamento do viúvo. Surpreendente?

Talvez seja bom advertir o leitor de que, ao seguir adiante, ele corre o risco de antecipar coisas sobre o filme. Pode deixar para ler depois de ver, quem sabe. “O que me atraiu nesse material é que David não é pervertido. O que faz, ele faz por amor. Seu desejo de feminilidade, de oferecer uma mãe à filha, tudo o conduz a se travestir”, explica o diretor. Pronto, está revelado o segredo, mas, no filme, ele também surge rapidamente. O que vem depois é que faz de Uma Nova Amiga uma experiência ‘troublante’, um tanto desestabilizadora. Ozon baseou-se num livro da escritora inglesa Ruth Rendell, uma das novas (a nova?) dama do crime. No livro, Claire termina por matar Virginia, a nova amiga, quando sente que ela está avançando o sinal e iniciando uma relação perigosa. Ozon dá outro rumo à sua adaptação, mas mantém o clima denso e tenso do thriller. O tempo todo o espectador fica em dúvida se essa história, como outras de Ruth Rendell, não terá um desfecho sangrento. “Queria manter o público de sobreaviso. Se existe crime, é metafórico”, diz o diretor, numa entrevista por telefone, de Paris.

Ozon está num momento de grande agitação, fazendo o casting – escolhendo o elenco – do próximo filme, que começa a rodar em setembro. Um filme de época, uma história de amor desenrolada após a 1.ª Grande Guerra. Como sempre, ele escreveu o roteiro, mas informa que essa é a parte que menos gosta no processo de um filme. Mas então por que não contrata colaboradores? “Não me adapto a escrever com outras pessoas, mas sei que preciso do roteiro. Com um pouco de disciplina, chego lá.” Ele precisa do roteiro para filmar. “E eu adoro filmar. O set, os atores. Isso, para mim, não é trabalho, é prazer. Faria até de graça”, brinca. “Mas a parte de que mais gosto é a montagem.”

Já que falou sobre seu prazer de dirigir atores, Ozon comenta como foi com os de Uma Nova Amiga. “Romain (Duris) me confessou que seu sonho sempre foi representar travestido. Como ele é um galã, nunca ninguém lhe ousou propor um papel desses, mas ele não vacilou. Disse sim ‘tout de suite’. Quando pequeno, a irmã mais velha o vestia como mulher, e ele acha que veio daí seu desejo de virar ator.” E há, no filme, Isild Le Besco, que faz a amiga, Laura. Na cena inicial, ela já morreu e está sendo preparada para o enterro. “Isild sempre quis filmar comigo. Falei-lhe do papel e ela não teve problema nenhum em fazer a morta. E a verdade é que Laura, mesmo morta, é uma referência permanente no filme. Precisava de uma atriz que permanecesse viva no imaginário do público.”

Embora a homossexualidade, e desejos reprimidos, estejam no filme, Ozon prefere ver Uma Nova Amiga como sua contribuição a outro tema na ordem do dia. “O casamento gay deixou de ser tabu e hoje precisamos encarar que os papéis sexuais e a própria família estão mudando.” O repórter lembra Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar, que vai ainda mais longe que Ozon. A travesti de Almodóvar tem um filho com a noviça. Ozon adora Almodóvar, mas suas influências para Uma Nova Amiga foram outras. Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, e Victor/Victória, de Blake Edwards. “Gosto muito dessa ideia do travesti que surge como um peso, uma necessidade, e termina virando um comportamento natural, um prazer.” Para Ozon, ao monitorar a transformação de David, Claire age como uma diretora. “Foi assim que a vi, como uma diretora dentro do filme.”

Existem momentos decisivos, quando Claire tem o choque do contato físico com o sexo de Virgínia/David. E, quando as amigas vão à boate, a canção, cantada pela transformista, fala da sensação de se sentir mulher. “É uma canção cubana que fez muito sucesso na França, nos anos 1970. É uma nova versão do príncipe encantado. Achei que seria divertido usá-la como uma espécie de epígrafe para a própria Claire. O príncipe encantado para a nova mulher do terceiro milênio não é mais o modelo antigo. E por isso escolhi Raphaël Personnaz para ser o marido. Um ator bonito, que representa o apaixonado. Nada disso é mais suficiente para assegurar a felicidade das mulheres. O mundo anda mais complicado, mas no fundo é muito simples. O amor faz suas leis.”


Mais conteúdo sobre:
François Ozoncinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.