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Análise: 'Tudo Sobre Vincent' não abusa de efeitos especiais e concentra-se na história

O que importa mesmo é menos a história em si, mas a maneira como a direção a conduz

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2016 | 23h12

Em Tudo Sobre Vincent, Thomas Salvador realiza a proeza de criar uma espécie de super-herói que não seja boçal. Verdade que esse “herói” é francês e nada tem da debilidade das histórias em quadrinhos levadas às telas. Vincent é, digamos, assim, um super-herói parcimonioso e discreto. Em tudo. Até mesmo na força física e na agilidade que, se parecem muito superiores às de um ser normal, cabem, sem muita dificuldades, na escala humana.

Acontece que Vincent, interpretado pelo próprio Salvador, vê sua força e agilidade decuplicados quando tem o corpo banhado em água. Num rio ou num lago, nada como um peixe. Fora d’água, mas ainda molhado, corre como um puma ou mostra-se capaz de erguer uma betoneira, além de enfrentar na mão um batalhão de policiais posto em seu encalço.

Ele é maneiro, porque, em vez de explorar seus poderes, deseja apenas viver de forma tranquila, sem que ninguém saiba de suas habilidades. Humano porque também cede aos apelos da paixão e se enamora de uma bela garota. A tal ponto que decide confiar seu segredo à moça.

Salvador concilia essa ideia inicial que tira a história do realismo e dá a ela um tratamento naturalista, além de simples. Apesar do pressuposto, digamos assim, sobrenatural (no sentido não fantasmagórico, mas que extrapola os limites da natureza), o desenvolvimento da trama é bastante singelo.

Mesmo as trucagens e efeitos especiais parecem bastante simplórios se comparados ao exibicionismo vazio do cinema de ação contemporâneo, o dos blockbusters. Dispondo de orçamento modesto, Salvador limita-se a apagar, com o digital, cabos e outros recursos usados pelo herói em suas demonstrações de força e destreza.

O que importa mesmo é menos a história em si, mas a maneira como a direção a conduz. Com toda a fluidez, economia de recursos e desenvoltura. A obra é tão fluida (já que em seu centro nervoso está a água) que nem parece coisa de estreante. Verdade que Salvador já era conhecido por seus curtas de sucesso, mas este é o seu primeiro longa. Foi erguido aos cornos da Lua pela melhor crítica francesa, dos Cahiers du Cinéma aos Les Inrockuptibles, do Le Monde ao Le Nouvel Observateur. Uma carreira a ser observada.

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