Zubin Mehta em concerto impecável

Com a Filarmônica de Israel, apresentação de terça, na Sala São Paulo, comprovou precisão e segurança de seus músicos

, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

O Don Juan de Nikolaus Lenau não é nem a figura demoníaca da ópera de Mozart, nem o cínico desiludido da comédia de Molière: é o polo extremado do desejo de desfrutar de todos os prazeres que os sentidos podem oferecer, acompanhado da sensação de vazio trazida pela saciedade. Foi essa vertente ultrarromântica da partitura de Richard Strauss que Zubin Mehta preferiu explorar, em sua leitura de Don Juan Op. 20, no concerto de terça-feira, na Sala São Paulo, com a Filarmônica de Israel - ainda que numa interpretação que, às vezes, sacrificou a nuance à retórica, aos traços grossos e ao efeito teatral. A mesma maneira exteriorizada de conceber a música marcou sua versão de Till Eulenspiegels Lustige Streiche Op. 28.O resultado não deixou de ser muito convincente, pois a orquestra formada por Bronislaw Huberman, que teve Leonard Bernstein entre seus titulares, mantém um nível técnico espetacular, possui uma grande clareza de texturas - detalhes da orquestração de Don Juan, que foi possível ouvir com ela, muitas vezes escapam, nas audições ao vivo normais - e exibe enorme precisão nos ataques e gradações dinâmicas. Se a sequência demasiado acelerada, que precede a ida de Till para o patíbulo, não soou empastelada, foi porque os músicos possuem grande segurança de articulação. E as qualidades individuais, demonstradas nas duas peças que compuseram a primeira parte, nos prepararam para o resultado da segunda, na qual realmente esteve o que o programa ofereceu de melhor.Não há nada que Strauss saiba fazer melhor do que descrever como o compositor Richard Strauss cria a sua obra. Isso é que faz o fascínio de Ein Heldenleben Op. 40 que teve, finalmente, nas mãos de Zubin Mehta e da Filarmônica de Israel, uma leitura em que o brilho técnico foi um apoio à musicalidade. Com a frase ampla e poderosa, que retrata o Herói, Mehta fez contrastar, na flauta e depois no oboé, os acentos grotescos, caricaturais que representam os seus adversários, toda a mesquinharia dos conservadores avessos às novidades.Tanto em Don Juan quanto em Till, é muito importante a atuação do spalla. Mas é ao retratar a Companheira do Herói - mais um dos perfis da intrigante Pauline de Ahna, a quem Strauss amou com tanta intensidade, que semeiam a sua obra - que o violino desempenha um papel fundamental. E Iliá Konovalóv soube desenhar, com beleza incomparável, todas as facetas dessa mulher ora sedutora e terna, ora imprevisivelmente arrogante, na qual o Herói encontra inspiração e apoio.O Campo de Batalha do Herói, anunciado pela fanfarra dos três trompetes em si bemol, teve o mesmo tratamento exteriorizado que tinha marcado as peças da primeira parte. Mas, aqui, com uma justificativa lógica, pois esse trecho de construção marcial forma uma espécie de intermezzo entre o episódio lírico da terceira seção, e o coração emocional da peça: o balanço que Strauss faz do que a sua obra trouxe de novo à música de seu tempo.A prática da autocitação, tão frequente em outros músicos, torna-se, com Strauss, uma arte refinada. Em As Obras de Paz do Herói, ele trança essas citações não de forma a fazer delas uma colcha de retalhos, mas como uma sequência lógica, em que se encadeiam trechos de Don Juan, e de Zarathustra, de Morte e Transfiguração e do Don Quixote. Aqui, de maneira espetacular, foi possível avaliar as qualidades individuais de músicos, cuja execução foi impecável. E, com isso, Mehta preparou o emocionante final do poema sinfônico: A Despedida do Herói e Sua Realização.O solo do corne inglês, ecoado pela trompa, traz o belíssimo tema da sabedoria adquirida através da resistência às adversidades - amparada, é claro, pelo amor, que o violino solista relembra docemente. Com a Apoteose do Herói, Mehta e a orquestra de Israel trouxeram-nos uma imaculada versão de um dos mais originais poemas sinfônicos dentro da história desse gênero.Para encerrar um concerto dedicado a Richard Strauss, o que poderia ser melhor do que a abertura das Bodas de Figaro? Afinal, foi ele quem aconselhou a um jovem compositor: "Não perca tempo ouvindo a minha música, meu filho. Ouça Mozart." E para mandar o público contente para casa, a polca Tritsch Tratsch, que também é de Strauss (o outro!). ServiçoFilarmônica de Israel. Parque Brasil 500. Avenida Prefeito José Lozano de Araújo 2.255, Paulínia. Domingo, às 16 horas. Grátis

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