Zelo pela democracia não vacila

O desastre da 3ª Expedição e a nova ofensiva sob responsabilidade da 4ª Expedição, que viria a ser a última, renderiam um segundo artigo, já falando menos da natureza e mais da gente envolvida, inclusive de Antonio Conselheiro. Ardente de entusiasmo republicano, o texto dedica-se a analisar a campanha propriamente dita mais de perto, entregando-se a observações de estratégia e tática. Passados quatro meses desde o primeiro artigo de mesmo título, a última expedição já se encontra nas imediações de Canudos. Recrutara um contingente inédito em nossa história e tinha um caráter nacional, porque as tropas constituíam uma amostragem da população brasileira do Oiapoque ao Chuí, o que aliás era enfatizado constantemente pela mídia e pelos militares. Enredadas em dificuldades de toda sorte, desde a hostilidade do terreno até problemas primários de logística como o abastecimento, as forças não conseguiam avançar. As duas colunas em que se dividiam, uma proveniente de Aracaju e outra de Salvador, apesar de dotadas de uma superioridade bélica esmagadora, encontravam-se paralisadas nos arredores do arraial há perto de três meses. Seu comandante - em- chefe era o general Artur Oscar de Andrade Guimarães. Por fim, haveria um total de cinco generais e o próprio ministro da Guerra deslocaria para lá seu gabinete. Euclides registra várias críticas à maneira como a expedição está sendo gerenciada. E adverte para a dificuldade maior, que reside na condução de uma guerra convencional, desenvolvida por um exército organizado, contra hostes de guerrilha.É intrigante ler o paralelo que estabelece com as invasões colonialistas das potências europeias no território de outros povos, como os zulus e os afegãos, guerrilheiros desafiando o poderio da Inglaterra, à época o maior do mundo. Entre os vários exemplos que alinha, nunca lhe ocorre que esta não é propriamente uma guerra imperialista e que os canudenses também são compatriotas. Entretanto, em seu ardor de militante, o zelo pela democracia que viera suplantar o Antigo Regime, bem como a fé que nela deposita como avanço da civilização e do progresso, não vacila um só momento.

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