Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Yuri Dojc, fotógrafo esloveno, faz crônica do fim da cultura judaica na Eslováquia em exposição

Mostra traz 57 imagens de sinagogas, escolas e bibliotecas abandonadas desde 1942, quando os nazistas deportaram judeus eslovenos para Auschwitz

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2016 | 06h00

Yuri Dojc é um fotógrafo esloveno que mora no Canadá. Katya Krausova é uma cineasta, também eslovena, que acompanhou Dojc em sua odisseia em busca dos traços de seus antepassados no país natal de ambos, registrando os últimos testemunhos da cultura judaica na Eslováquia. O resultado desse esforço conjunto é exibido, a partir hoje, 18, para convidados (e amanhã, para o público), na exposição Last Folio – Preservando Memórias, que já percorreu 15 países desde 2009 e chega à Unibes Cultural com patrocínio do grupo internacional de mídia Bertelsmann, marcando o primeiro ano de atividades da entidade sob direção de Bruno Assami.

São 57 imagens selecionadas pelo próprio fotógrafo e pela cineasta, conhecida diretora independente da televisão britânica, que, em 1997, recebeu o Oscar pela produção do longa Kolya, dirigido por Jan Sverák. Kolya é um drama terno sobre um músico solteiro que casa com uma russa em troca de dinheiro, ficando responsável por seu filho de 5 anos quando ela foge para a Alemanha Ocidental (o filme se passa durante o regime comunista).

Essa história não diz respeito só à mãe do garoto do filme. Tanto Yuri como Katya também deixaram a Checoslováquia em 1968, quando os tanques soviéticos tomaram Praga. O fotógrafo refugiado se estabeleceu em Toronto. Katya foi para Londres. Encontraram-se para rodar um filme e rastrear os últimos sobreviventes que escaparam dos nazistas, o primeiro deles uma mulher chamada Ruzena Vajnorská, que Yuri conheceu no funeral de seu pai, em 1997.

Apontando a foto de Ruzena na exposição, a cineasta Katya Krausova conta sua história, a de uma vidente que lia o destino das pessoas nas mãos e anteviu seus últimos dias amparada por um anjo. “Isso de fato aconteceu, pois ela, que costumava visitar os sobreviventes do Holocausto, oferecendo um pouco de conforto, foi cuidada na velhice por esse anjo.”

Antes, Ruzena fez o mesmo papel, guiando Yuri pelas ruínas de Bardejov, uma cidade da Eslováquia próxima à fronteira com a Polônia tomada pelos soviéticos em 1945. De lá partiu, em 1942, o primeiro trem para o campo de extermínio de Auschwitz. Ruzena estava nesse trem. A primeira frase que diz no documentário da diretora resume tudo: “Você precisa saber que eu era kapo, uma controladora em Auschwitz”, diz, explicando como sobreviveu naquele inferno criado pelos nazistas.

O fotógrafo  Yuri Dojc encontrou poucos sobreviventes como Ruzena Vajnorská, a “kapo” de Auschwitz, em sua jornada pelo passado judeu na Eslováquia. Decidiu, então, fotografar as ruínas de sinagogas e escolas frequentadas por judeus antes da deportação e do estabelecimento do regime fantoche dos nazistas, em 1939, que fechou locais de cultos.

A jornada do fotógrafo levou-o a uma dessas escolas no leste da Eslováquia, mantida em Bardejov no mesmo estado em que se encontrava em 1942, incluindo o pó dos tempos. Miraculosamente, um livro surgiu de uma estante empoeirada com o nome do avô do fotógrafo, o alfaiate Jakab Deutsch. Fechava-se o ciclo familiar, que começou com o velório do pai, onde conheceu Ruzena.

“Essa jornada, mais que a busca pelo passado dos judeus que viveram na Eslováquia, representou para mim uma viagem em busca da identidade”, resume Dojc, que, entre outras pessoas, retratou sua mãe e uma professora de música, registros austeros próximos da estética de August Sander.

O pictorialismo de Yuri é notável. A ordem (mono) cromática das imagens remete o espectador automaticamente para as primeiras séries do pintor alemão Anselm Kiefer que refletem sobre o passado da Alemanha e rememoram a tragédia nazista por meio da arquitetura da chancelaria do Reich reduzida a cinzas. Yuri diz que não é a primeira vez que observam semelhanças entre suas paisagens e as de Kiefer, descontada a devida distância que separa os dois artistas. Enquanto Kiefer pinta a chancelaria do Reich, Yuri fotografa sinagogas com mais de dois séculos na Eslováquia, fechadas há mais de 70 anos.

Outras imagens da mostra incluem lápides de cemitérios judaicos e bibliotecas inteiras consumidas por insetos – outra série que o aproxima de Kiefer, autor de uma biblioteca de chumbo. “Cada livro que fotografava era como o retrato de uma pessoa, um fragmento da história dos judeus eslovenos”, diz Yuri, assumindo sua narrativa simbólica, na qual não faltam alusões aos livros sagrados. Uma das fotos da mostra, por exemplo, é uma representação alegórica da escada que aparece no sonho bíblico de Jacó, pela qual anjos sobem e descem ao céu.

Filho de um diretor de escola secundária e de uma professora, o fotógrafo Yuri Dojc, 70 anos, nasceu em Hummené, cidade cercada por ruínas de castelos medievais. De tanto conviver com elas, era natural que Dojc buscasse uma contrapartida. Simultaneamente à série Last Folio, o fotógrafo começou a registrar casais românticos se beijando nas ruas – e os eslovenos não precisam de pretexto para roubar um beijo, logo descobriu Dojc, autor de campanhas publicitárias que se tornaram populares.

Doze imagens da série Last Folio foram incorporadas ao acervo da Biblioteca do Congresso em Washington. Esse interesse, ele reconhece, não foi exclusivamente artístico, mas histórico. Muitos fotógrafos entram em prédios abandonados ou destruídos por razões formais – caso do canadense Robert Polidori, que registrou a devastação provocada pelo furacão Katrina. Não é o caso de Dojc, embora seja possível identificar certa semelhança cromática entre o tom plúmbeo das fotos de Polidori e as imagens de Bardejov, em especial as do Mikvah (banho ritual de purificação) nas sinagogas abandonadas.

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