Yuksek e a festa de timbres robóticos

Produtor francês foi o destaque de mostra na Vila dos Ipês, que atraiu 2,5 mil pessoas para os galpões chiques da zona oeste

Marcus Vinícius Brasil, O Estadao de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 00h00

O francês Yuksek salvou a noite de anteontem, no Häagen-Dazs Mix Music, e de quebra provou por que é considerado promessa da eletrônica européia. Segundo a assessoria da organização, cerca de 2,5 mil pessoas compareceram ao evento na Vila dos Ipês. Com o cabelo caído sobre o rosto e vestindo uma camisa quadriculada, o músico mais parecia um remanescente do grunge norte-americano. Só faltaram alguns rasgos na roupa.Enquanto as outras atrações tiveram dificuldades em vencer a concorrência da boca livre de sorvete, que atraiu o público para os quiosques onde o quitute era distribuído, Yuksek reuniu uma boa quantidade de gente em frente ao palco. A platéia - majoritariamente feminina - dançou ao seu som cadenciado, claramente inspirado no funk dos anos 70 e na geração eletrônica parisiense da década passada. Além do som robótico dos teclados sintetizadores, as músicas ganharam ainda vocais carregados por efeitos, que fazem o francês soar como um primo mais jovem - e mais pop - do Kraftwerk. Apesar de ter enfrentado alguns problemas técnicos com a mesa de som, no início da apresentação, que fizeram a música parar por alguns momentos, ele foi o único que tocou sem picapes. Renunciou a máscaras ou truques cênicos - comuns em apresentações de música eletrônica - e contou apenas com uma aparelhagem econômica. Todo seu repertório saiu de um notebook, filtrado por uma caixa de efeitos e desmembrado na base do improviso. Simpático, agradeceu mais uma vez aos presentes entre uma música e outra. Mesmo sem ter nenhum álbum lançado, Yuksek mostrou que possui um repertório extenso. Tocou músicas de seu lançamento mais recente, o EP Tonight, além de faixas que nem sequer foram para as lojas. Símbolo da geração de músicos promovidos por blogs, ele fez a alegria de quem estava aborrecido com o set genérico do VHS or Beta. E com a requebrada Break Ya, garantiu um dos momentos mais intensos do show.A apresentação terminou em uma verdadeira folia de timbres robóticos e bateria quadrada. Ainda que não seja um dos membros da gravadora Ed Banger - centro nervoso da cena francesa e casa do Justice -, Yuksek é um dos nomes que fazem o país do Daft Punk se manter como destino certo para quem estiver procurando por novidades dançantes.VERSÃO BRASILEIRAOs jovens produtores do Database abriram a noite para poucas pessoas. Expoentes da cena eletrônica paulistana, Lucio Morais e Yuri Chix tocaram pesado para aqueles que ainda procuravam por um lugar na pista da festa. O clima foi mesmo de esquenta, e depois de apresentar uma seleta de produções próprias, a dupla encerrou com um remix para a emblemática Music Sounds Better With You, do Stardust. VHS OR BETA, DATABASE E HOMENAGENS AOS QUE SE FORAM A noite na Vila dos Ipês foi aberta pelos brasileiros do Database, que tocaram até 1h20, quando trocaram de posto com os americanos do VHS or Beta. O ponto alto do Database foi quando tocaram o tema clássico do seriado de TV Batman, símbolo da era da pop art. O tema foi composto por Neal Hefti, morto há 22 dias na Califórnia, aos 85 anos. Lembrança inteligente e oportuna. Mas o Database também é irregular, e a insistência no pop mais batido, como Thriller, de Michael Jackson, derrubou as mais altas expectativas.A dupla de deejays oriunda da banda VHS or Beta, formada pelo baixista Mark Palgy e pelo guitarrista Craig Pfunder (este último um descendente de orientais que lembra terrivelmente o guitarrista James Iha, do Smashing Pumpkins), também se arriscou em resgates impossíveis. O mais insólito foi num remix de Bette Davis Eyes, megasucesso de Kim Carnes nos anos 1980. O repertório de alguns DJs celebrities da música eletrônica, como Peter Hook, do New Order, tem se revelado um tanto limitado. A fama é maior do que a inspiração. J.M.

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