Xuxa, rainha também de Gramado

Ela agitou a quinta-feira, quando recebeu homenagem da 37.ª edição do evento

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Foi um bochincho como há muito tempo não se via no Festival de Gramado, principalmente agora que a curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz tenta privilegiar o cinema autoral sobre o glamour do tapete vermelho. A vinda de Xuxa para receber seu troféu de homenageada foi o acontecimento de quinta-feira. Ela chegou blindada, cercada de seguranças. Não deu entrevistas, de certo para não ter de explicar por que o melhor filme do qual participou, Amor, Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, foi expurgado de sua filmografia oficial. Ele simplesmente não aparece no material distribuído aqui em Gramado para a imprensa. Há alguns anos, Xuxa conseguiu tirar o DVD de circulação, alegando que o contrato da época não previa o lançamento nessa mídia. Na verdade, sempre houve a suspeita de que a rainha dos baixinhos queria o filme fora das vistas do público porque a mostra nua em cena com um garoto.No próprio Palácio dos Festivais, havia gente vendo cenas selecionadas - ?aquela? cena de Amor, Estranho Amor - no YouTube. A chegada de Xuxa foi marcada pelo tumulto. No interior da sala, quando se dirigia para o palco, um fã a abraçou. Tudo bem, o cara poderia ter uma faca - não tinha, mas os seguranças agiram como se fosse o terrorista mais procurado da organização de Osama bin Laden. O especial do Canal Brasil citou os números que justificavam a homenagem - Xuxa levou 28 milhões de espectadores aos cinemas em 19 filmes. Pode-se criticar a estrela e o que ela significa, mas não colocar em xeque sua beleza nem a validade do trabalho que realiza na Fundação Xuxa Meneghel. Mas ela não foi à serra gaúcha para contemporizar. Xuxa encerrou seu discurso de agradecimento, cujo tom estava na resposta ao preconceito (da crítica?), com uma frase retumbante - "Sou loira, sou povo e sou uma vencedora." Vale esclarecer que o Jornal de Gramado anunciou, na sua edição de ontem, que ela cobrou R$ 60 mil de cachê, mais jatinho, para ser homenageada. A organização do festival desmente. Xuxa teve jatinho e carro blindado pagos pelo evento, mas cachê para receber homenagem não existe, informa a assessoria.O furacão Xuxa foi a sensação de Gramado 2009, mas o festival, por outro lado, expôs a jequice da mídia. Os grandes grupos jornalísticos do Rio Grande do Sul deram tratamento diferenciado ao evento. Em face do recuo dos globais, Zero Hora minimizou sua cobertura, antes caudalosa. O Correio do Povo, pelo contrário, alardeou o elenco da Record que segura o que resta do glamour. À parte todos esses detalhes, o 37º festival inova. Considerando que os festivais integram o circuito exibidor - e muitas vezes são quase o único foro para alguns títulos -, Avellar e Sanz conseguiram que a organização pague para apresentar os filmes selecionados. Gramado termina hoje com a entrega dos Kikitos. Ainda faltava exibir, ontem, os últimos concorrentes - o uruguaio Gigante, de Adrián Biniez, e o nacional Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo. O primeiro, que concorreu em Berlim, talvez seja o melhor da mostra latina. O brasileiro era uma das incógnitas mais aguardadas desta edição. Marcos Jorge, afinal, realizou um dos melhores filmes recentes do cinema brasileiro - Estômago, animando a expectativa por sua parceria com o neófito Severo.Se o júri fizer a coisa certa, a disputa deve se resolver entre A Teta Assustada, de Cláudia Llosa, e Gigante, na mostra latina, e entre Canção de Baal, de Helena Ignez, e Corumbiara, de Vincent Carelli, na mostra brasileira.A seleção de curtas terminou apresentando alguns filmes bons, após a decepção do primeiro dia - A Invasão do Alegrete, de Diego Müller, e Ernesto no País do Futebol, de André Queiroz e Thais Bologna. Na quinta à noite, em meio à baderna da homenagem a Xuxa, foram exibidos dois longas em competição, o argentino Lluvia, de Paula Hernandez, belo solo para um casal de atores - Valeria Bertucelli e Ernesto Alterio, como a dupla cujos caminhos se cruzam numa noite chuvosa -, e o brasileiro Em Teu Nome, de Paulo Nascimento. O filme sobre a experiência do guerrilheiro João Carlos Bona Garcia teve uma sessão emotiva, um pouco pela presença do próprio biografado no Palácio dos Festivais. Foi uma vida de luta e sacrifício que impõe respeito. Já o mesmo não se pode dizer do filme, com seus personagens que parecem projeções das palavras de ordem que o diretor coloca na boca dos atores, e que alguns deles parecem declamar. Em Teu Nome também bombardeia o espectador com excesso de música, nunca absorvendo a força do silêncio. Mas foi aplaudido e existem até tietes que o consideram o melhor filme gaúcho jamais exibido em competição nos mais de 30 anos de Gramado. O repórter viajou a convite da organização do festival

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