Cortesia do Art Inst. Of Chicago/Art Resource, NY
Cortesia do Art Inst. Of Chicago/Art Resource, NY

Whitney Museum exibe a mostra de Grant Wood 'American Gothic and Other Fables'

Exposição está em cartaz em Nova York

Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO

20 Março 2018 | 06h00

NOVA YORK - American Gothic é um símbolo dos Estados Unidos nos anos da Grande Depressão. Mas mesmo quem identifica Grant Wood (1891-1942) como seu autor não sabe muito mais do que ele fez antes ou depois de pintar, em 1930, aquele fazendeiro magro, de rosto vincado e segurando uma forquilha, com uma mulher de olhar sombrio às suas costas, que hoje é uma das obras de arte norte-americana mais conhecidas. O Whitney Museum amplia essa visão com Grant Wood: American Gothic and Other Fables, retrospectiva que exibe até 10 de junho. Além do panorama da carreira dele com cerca de 130 pinturas, peças de artesanato, murais e ilustrações, a exposição abre novas interpretações para a representação que o artista mais celebrado do regionalismo americano deu ao Meio-Oeste do seu país há mais de 80 anos.

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Historiadora especializada em arte americana da primeira metade do século 20 e curadora do Whitney há 43 anos, Barbara Haskell, responsável pela organização da retrospectiva, incluiu American Gothic na seção sobre regionalismo americano da exposição American Century, que o Whitney apresentou em 1999. Mas sua perspectiva sobre a obra de Wood mudou durante as pesquisas para organizar a retrospectiva. Nessa reavaliação, Barbara viu matizes para tirá-lo “da sombra do regionalismo” e mostrar a relevância dele no contexto do clima político dos EUA de hoje. 

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“O trabalho dele trata da identidade do país num período duro, não muito diferente do atual, em que os americanos olhavam para o passado por necessidade de reafirmação”, diz a curadora. O que a retrospectiva pretende mostrar, segundo a organizadora, é haver uma complexidade mais profunda nas paisagens agrárias e personagens arquetípicos criados por Grant Wood.

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Decorativo. Quase “completamente fechado do mundo exterior”, segundo escreveu em uma autobiografia inacabada e inédita, Grant Wood nasceu numa família de quakers, grupo religioso de tradição protestante, que vivia numa fazenda perto de Anamosa. O lugarejo no Estado de Iowa tinha, na época, em torno de dois mil habitantes. Aos 10 anos, quando seu pai morreu, foi morar com a mãe e três irmãos em Cedar Rapids, cidade distante cerca de 40 quilômetros do lugar onde nasceu e população dez vezes maior.

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O interesse dele pelo desenho era nato, mas as histórias de que era autodidata e um artista-fazendeiro são fábulas como as que seus quadros representam. Ele tirou leite de vaca apenas na infância em Anamosa e vestia macacão como o do agricultor de American Gothic mais para reafirmar a figura de artista do interior, sem influências urbanas, do que por manejar um arado. Na adolescência, Wood criava cenários para peças teatrais da escola e, ao terminar o curso secundário, começou o treinamento para sua carreira como artista decorativo.

Depois de se formar no ensino médio, ele fez cursos no Handicraft Guild, em Minneapolis, e foi treinar na Kalo Arts and Crafts Community, oficina para artesãos num subúrbio de Chicago. Em 1914, abriu naquela cidade uma loja de artesanato e passou a ser conhecido pelos trabalhos em metal que exibia nas exposições anuais de artes decorativas do Art Institute of Chicago, onde frequentava aulas de desenho.

Mesmo quando voltou para Cedar Rapids, em 1916, e começou a pintar, Wood continuou fazendo trabalhos de decoração. Na primeira galeria da retrospectiva há alguns exemplos deles, como um candelabro de espigas de milho de cobre e ferro, no gosto da época e da região, feito sob encomenda para a sala de jantar de um hotel da cidade. Mais adiante está uma poltrona com otomano que ele fez para a sala de estar de sua casa em 1938. Um fabricante de móveis de Cedar Rapids produziu as peças e deu o nome de Grant Wood Lounge Chair para o conjunto, que foi vendido em lojas de departamento em todo o Meio-Oeste. No início da década de 1920, ele tinha se tornado o principal artista de Cedar Rapids, vendendo seus quadros e executando encomendas em vários estilos, conforme a necessidade de cada projeto. 

Como muitos artistas da sua geração, no começo da carreira Wood olhava para a Europa como centro de cultura. Visitou a Itália, a Alemanha e viveu por um tempo em Paris, estudando o trabalho dos impressionistas franceses. A assimilação do estilo de pinceladas soltas lhe rendeu reconhecimento e dinheiro. Mas no fim daquela década, ele deixou de ver a pintura europeia como modelo e passou a inspirar seu trabalho na região de onde vinha, mudança vista como o início do seu amadurecimento como pintor. 

No obituário dele, o jornal The New York Times destacou a explicação que o artista deu ao se voltar definitivamente para o que lhe era familiar e via como mais importante: “Vivi em Paris por alguns anos e deixei crescer uma barba espetacular que não combinava com meu rosto ou meu cabelo, e li Mencken (Henry Louis Mencken, jornalista que se destacava nos anos 20 pela crítica da fraqueza social e cultural dos EUA), e estava convencido de que o Meio-Oeste era reprimido e improdutivo. Mas voltei porque aprendi que a pintura francesa é ótima para os franceses, não necessariamente para nós, e comecei a analisar o que eu realmente conhecia. Descobri. É Iowa”.

A última fase da carreira de Wood, entre 1930 e 1942, seguiu paralela ao período em que os EUA começavam a se recuperar da crise econômica iniciada com a quebra da Bolsa em 1929 e entraram na 2.ª Guerra Mundial. No meio do transtorno econômico e social causado pela Depressão, as fazendas e os retratos de Wood simbolizavam a reverência pelo trabalho árduo, a autoconfiança e os valores incorporados principalmente pelas pequenas cidades agrícolas.

Além de American Gothic, são dessa época as ilustrações para os livros Farm on the Hill (1936), de Madeline Darrough Horn, Passions Spin the Plot (1934), de Vardis Fisher, e O. Chautauqua (1935), de Thomas W. Duncan, todos em cenários do Meio-Oeste, Woman with Plants (de 1929 e para o qual Hattie, a mãe de Wood foi a modelo), Dinner for Threshers (1934), Plowing (1936). E também o patriótico Parson Weem’s Fable (1939), sobre o valor da verdade, no qual o presidente George Washington aparece como uma criança confessando ter cortado a cerejeira do pai.

Barbara Haskell considera que “o poder duradouro da arte de Wood deve tanto à sua imagem arquetípica do Meio-Oeste quanto à sua ambiguidade psicológica”. Parte dessa indeterminação, conforme ela observa, seria relacionada à luta interna do artista para ocultar sua homossexualidade numa sociedade fortemente homofóbica como a da época. As paisagens que ele pintou, afirma a curadora da retrospectiva, não representam a vida nas fazendas do Meio-Oeste nos anos 30, mas retratam memórias idealizadas da fazenda em Anamosa nos últimos anos do século 19. “O desejo dele não era tanto retratar um mundo que estava se tornando extinto, mas recuperar uma infância que existia apenas na sua imaginação.”

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