Brendan McDermid/Reuters
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Whitney Museum, dedicado a obras americanas, está de casa nova

O edifício assimétrico de 20 mil metros quadrados divididos em nove andares, situado em Nova York, custou US$ 550 milhões

Tonica Chagas, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2015 | 03h00

NOVA YORK - Com quase 85 anos de idade e instalado no Meatpacking District, uma das áreas de Manhattan atualmente mais em voga para galerias, restaurantes, lojas e clubes classe A, o Whitney Museum, dedicado exclusivamente à arte americana, abre na próxima sexta-feira, dia 1.º, sua nova casa - um edifício assimétrico de 20 mil metros quadrados divididos em nove andares de vidro e aço criado pelo arquiteto Renzo Piano e que custou, entre projeto e construção, US$ 550 milhões. America is Hard to See, a mostra inaugural com mais de 600 obras do acervo distribuídas em 23 capítulos sobre a história da arte americana nos últimos 150 anos, ficará em exibição até 27 de setembro.

À beira do Rio Hudson, no lado oeste da cidade, o novo Whitney tem o dobro do tamanho do prédio que ocupou desde 1966 e até outubro do ano passado, na esquina da Madison Avenue com a 75th Street. Seu antigo endereço no Upper East Side já está alugado pelos próximos oito anos para o Metropolitan Museum que, a partir do ano que vem, deve instalar lá um satélite para projetos educativos e expor arte moderna e contemporânea. Desta forma, o Met também abre espaço na própria sede, situada a dez quadras.

Com escadas de metal na parte leste conectando os três andares superiores construídos em recuos como os de degraus gigantescos, o novo Whitney lembra um pouco o edifício que ocupou por 48 anos, uma construção modernista de fachada também assimétrica desenhada pelo húngaro Marcel Breuer. Mas se o Whitney de Breuer é encerrado em concreto, o de Piano, apesar de colossal, é coberto por grandes janelas e terraços que, se não disfarçam suas 28 mil toneladas de peso (4 mil são de aço para sustentar galerias sem colunas) o enchem de luz e dão vista para a silhueta de Manhattan. 

O Whitney no Hudson tem de sobra o que antes lhe faltava para mostrar os cerca de 22 mil objetos de sua coleção: espaço. São 4.600 metros quadrados para exibições internas e 1.200 do lado de fora das galerias. “Ele não é só um lugar magnífico para se ver arte - é também material para artistas trabalharem nele, sobre ele e dentro dele”, diz Adam Weinberg, diretor do museu.

A mudança foi uma total transformação. Além de galerias largas e de teto gradeado que permitem diversas configurações das paredes (uma delas, com 1.600 metros de área, é a maior galeria sem colunas de Nova York), terraços externos para esculturas e performances, o museu ampliou seu centro de conservação e tem, pela primeira vez, um teatro com 170 lugares, um centro para estudos de obras em papel e um centro educativo. 

No lobby, onde serão exibidas obras do acervo com entrada franca para os visitantes, estão a loja e o restaurante do museu, que tem ainda um café no oitavo andar. “A arte está literalmente no centro do edifício”, brinca Weinberg, ao apontar os quatro elevadores com paredes desenhadas pelo artista Richard Artschwager. Six in Four, título que Artschwager deu ao único projeto comissionado para o novo Whitney, é o último que ele criou antes de morrer, em 2013, e se baseia em portas, janelas, mesas, cestos, espelhos e tapetes, os seis principais temas que eram seus preferidos.

Rezoneamento. O plano de expansão começou ainda na década de 1980, quando se pensava numa área maior na mesma Madison Avenue onde ele estava havia meio século. Depois de décadas de estudos e várias tentativas de realização daquele plano no Upper East Side, o ex-prefeito Michael Bloomberg abriu a oportunidade para o Whitney fazer parte do rezoneamento do Meatpacking District, tornando-se a base da High Line, parque elevado construído sobre um antigo trecho ferroviário.

A High Line favoreceu projetos imobiliários de alto valor na região que, no início do século passado, era ocupada por matadouros e empacotadoras de carne, de onde vem o nome dela. Segundo planos da prefeitura, diversas construções deste passado industrial que ainda estão entre o museu e o rio vão desaparecer e dar lugar a parques, aumentando a valorização da área. O município é o segundo maior colaborador do novo Whitney, por ter negociado o terreno em que ele foi erguido e alocado US$ 55 milhões para a construção.

“A parte mais difícil para a empreitada era financiar o edifício e criar uma dotação proporcional”, lembra Robert Hurst, copresidente do museu. Há duas semanas foi ultrapassado o objetivo de US$ 760 milhões de levantamento de capital e, conforme lembra Hurst, a campanha - lançada pela American Art Foundation, organização presidida pelo empresário do setor de cosméticos Leonard A. Lauder com a doação de US$ 125 milhões, a maior já recebida pelo Whitney - termina em 30 de junho, o que significa que a soma deve aumentar nos próximos dois meses. 

Liberdade. O Whitney está de volta a suas raízes, a apenas alguns quarteirões de onde nasceu, em 1931. O museu foi criado pela escultora (e milionária de nascimento e casamento) Gertrude Vanderbilt Whitney (1875 -1942), patronesse de artistas americanos que não conseguiam expor seus trabalhos nas primeiras décadas do século 20. Em 1914, Gertrude fundou o Whitney Studio, no Greenwich Village, promovendo exposições dos seus protegidos. 

Em 1929, ela ofereceu ao Metropolitan Museum mais de 500 obras de sua coleção mas, como a oferta não foi aceita, a milionária resolveu criar o próprio museu. Fundado em 1930, o Whitney Museum foi inaugurado no ano seguinte na 8th Street, no mesmo bairro. Em 1954, ele mudou para o lado oeste da 54th Street, na área central de Manhattan. Ficou ali apenas por nove anos e, em 1966, passou para o edifício da Madison Avenue, de onde voltou agora para a parte sul da cidade.

Renzo Piano, italiano que ganhou fama internacional em 1971 ao vencer a competição para projetar o Centre Pompidou, em Paris, compara a ideia do projeto do Whitney à do museu francês. Conta que idealizou a entrada de ambos como “praças para acolher as pessoas”, onde quase não se percebe o limite entre a rua e o edifício, de onde se vê todo o movimento de pessoas e veículos em torno dele. 

“Isto é o que chamamos de largo”, explica o arquiteto referindo-se ao lobby envidraçado do prédio. “Um edifício concebido para a beleza deve ser aberto, acessível, não intimidante, não pretensioso. O mais importante é não ter barreira entre ele e a cidade. Museu é um espaço para a arte e arte é liberdade”, define Piano. A expectativa dele é de que “as pessoas sintam que o edifício foi desenhado para tornar visível essa liberdade.”

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