Weingärtner,um pintor na fronteira

Formado na Europa, o gaúcho ganha retrospectiva que revela essa influência

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

27 Junho 2009 | 00h00

Pedro Weingärtner: Um Artista entre o Velho e o Novo Mundo, exposição que a Pinacoteca do Estado abre hoje ao público, parece resgatar uma velha dívida com um dos mais talentosos pintores oitocentistas brasileiros, que ficou por longa data com uma representação pública limitada às belas telas que possui nos acervos permanentes dos principais museus de São Paulo, Rio, e Porto Alegre, sua cidade natal, tendo sido necessário esperar oitenta anos após sua morte para que finalmente se desse a realização de uma retrospectiva digna de sua obra. Seu naturalismo, o excessivo zelo, quase fotográfico, com os detalhes, levaram a obra de Weingärtner a ser apontada por muitos críticos ao longo do século 20 como excessivamente preocupada com o preciosismo formal - aprendido com os mestres europeus - e alheia às investigações de vanguarda. Como escreve José Roberto Teixeira Leite, ele "nada tem de um precursor de novas tendências". Vista por outro ângulo, essa "falta de modernidade" não deixa de ser um dos pontos mais encantadores de sua obra - e da exposição. Ao longo das salas da Pinacoteca, o visitante tem a oportunidade de ver reunidas quase 150 obras de sua autoria - telas, na maioria, mas também desenhos e gravuras -, realizadas em diferentes países e explorando concomitantemente temáticas bastante distintas. Trata-se de um perfil muito elucidativo e amplo da história e formação particular de Weingärtner. Mas que também contribui para uma compreensão mais rica das questões que mobilizavam a maioria dos artistas nessa virada do século 19 para o 20, como a tentativa de reproduzir a realidade - física e social - da maneira mais fidedigna possível e a manutenção de um vínculo quase natural com modelos de representação já clássicos, bem ao gosto da burguesia que lhes comprava os quadros. Identifica-se em sua obra por exemplo a importância de mestres como William-Adolphe Bouguereau. Consta que foi o próprio neoclássico francês que se dirigiu a D. Pedro II pedindo a concessão de uma bolsa para que o aluno gaúcho pudesse continuar seus estudos.Como enfatiza o subtítulo da exposição, Weingärtner pertencia tanto ao velho como ao novo mundo. Cruzou com frequência o Oceano Atlântico, viveu na Alemanha, em Paris e sobretudo em Roma. Viajou muito pelo Brasil, chegou a dar aulas na Academia de Belas Artes, e retratou um conjunto fascinante de paisagens - com destaque para as derrubadas, como no quadro do Museu Nacional de Belas Artes, para onde a exposição segue após São Paulo, indo ainda posteriormente para Porto Alegre - e cenas de gênero no sul do país. Destacam-se, por exemplo, Kerb, registro feito em 1892 de uma festa tradicional da comunidade alemã. Com o mesmo preciosismo e devoção aos detalhes ele retrata, por exemplo, a fundação da cidade de Nova Veneza (capa do alentado livro que está sendo publicado reunindo as pesquisas da exposição, com curadoria de Ruth Sprung Tarasantchi, e as investigações mais recentes sobre Weingärtner), uma série de cenas em Anticoli Corrado, vilarejo próximo a Roma, onde costumava trabalhar ou cenas bucólicas e mitológicas, greco-romanas, de grande apelo comercial.Além da já mencionada obsessão com os detalhes, num impressionante requinte na reconstituição de objetos, flores e estamparias, e da impressionante reapropriação que ele faz de elementos presentes na sua própria pintura - retrabalhando e realocando detalhes com grande maestria - outro aspecto extremamente fascinante se destaca na produção de Weingärtner: seu apego à narrativa, ao uso do quadro não como síntese de um momento preciso, mas como registros passageiros - e temporalmente construído - de uma história visual. Exemplos evidentes são o tríptico Fazedora de Anjos, que pertence à Pinacoteca do Estado e pode ser considerado como um dos fios condutores principais de toda a mostra (leia texto ao lado) ou o conjunto As Fases da Vida. Há toda uma série de outros exemplos de "anedotas" retratadas com grande sarcasmo pelo pintor, como Jantar a bordo do Regina Margherita (1896), no qual flagra de maneira deliciosa o contraste entre o luxo do transatlântico e o enjoo dos passageiros com o balançar da embarcação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.