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Waltercio Caldas abre seu ateliê para o público e exibe obras inéditas

Escultor carioca apresenta seus cadernos de esboços em mostra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2015 | 04h00

Revelar o processo de trabalho é um ato generoso de grandes artistas, como o carioca Waltercio Caldas, que inaugura hoje, 14, no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), sua exposição Ateliê Transparente. A mostra, como indica o título, abre as gavetas do seu lugar de trabalho para que o público acompanhe o processo de realização de algumas de suas mais conhecidas obras, entre elas a origem da série Veneza, que ele apresentou na bienal italiana em 1997.

Nessa série de esculturas, que fixa placas com nomes de artistas (Matisse, Mondrian, Munch) a barras metálicas, Waltercio faz a transposição de referências históricas para objetos físicos. Ou seja, os artistas estão todos ali, mas sem obra, reduzidos à condição de palavras. O nome, enfim, é usado como matéria. E o objeto que deu origem a toda essa discussão filosófica está na mostra Ateliê Transparente. É uma peça preta (1991) com nomes recortados dos fascículos da coleção Gênios da Pintura, que antecipa a série Veneza, de 1997.

Como ele, o esboço de outro trabalho, lançado na mesma época, está na exposição, em tamanho reduzido. De dimensões liliputianas, o exemplar (de 1993) – um teste para o Livro Velázquez (1996) – tem todos os elementos que seriam usados na edição definitiva, dedicada a se apropriar do imaginário do pintor espanhol e subverter a ideia do livro de arte – em especial, sua tela As Meninas, que Waltercio transformou num cenário sem os personagens da célebre pintura, da qual ele também expurgou a nitidez, levando o leitor a uma zona nebulosa, em que texto e imagem viram fantasmagorias.

Se Velázquez acrescentou um fato novo no espaço pictórico, insinuando a presença do espectador (além do pintor) no próprio ambiente retratado, Waltercio criou com seus objetos uma superfície limítrofe, em que a “pele” desse objeto é seu próprio limite. Muitas esculturas do artista, de incrível leveza poética, sugerem que a matéria tem volume só para que o espectador descubra ser a mesma, na verdade, uma passagem de luz. O crítico Paulo Venancio Filho, a propósito, já disse que essas esculturas tendem à dissolução, habitando um espaço intermediário entre presença e ausência.

Aliás, esse é o motivo pelo qual Waltercio faz arte. Ele diz que gostaria de produzir um objeto “que pudesse ser visto num instante para logo em seguida desaparecer e ser novamente visto como se fosse pela primeira vez”. Assim, ele eliminou deliberadamente a cronologia da mostra, expurgando datas que pudessem guiar o visitante por caminhos tortos. Esculpir o tempo, como fazia Tarkovski no cinema, é o seu negócio. “Não dá para fazer cronologia, porque, para mim, tempo é matéria.”

Empenhado em nomear o espaço entre as coisas e a criar uma superfície fronteiriça entre o bidimensional e o tridimensional, era natural que aparecesse nessa mostra um exemplo de como Waltercio concebe suas esculturas quando não recorre ao desenho. Um pequeno pedaço de papel amassado com a figura de um muezim pode se transformar numa peça tridimensional em que o jogo entre palavra e imagem se desenvolve. Na peça Objetos em Outra Língua, uma expressão inglesa (Not Now) vira chinesa (Won Ton) numa inversão especular.

Em muitos casos, a linguagem poética induz o processo criativo. Waltercio cita dois exemplos, duas frases de grandes poetas. Com o francês Paul Valéry (1871-1945), ele aprendeu que “o mais profundo é a pele”. Com o checo Rilke (1875-1926), Waltercio descobriu que “a música é o outro lado do ar”. “Rilke me levou a uma possibilidade tridimensional”, revela, apontando um objeto na parede feito de isopor, Divertimento em si bemol alterado, de 1975, que poucos amigos viram em seu ateliê. “O isopor era o material mais adequado por ser 95% composto de ar”, diz, embora reconheça o potencial tóxico do poliestireno.

Essa adesão a uma poética que nega o “estardalhaço” cultural, como definiu o crítico Harold Rosenberg, conduziu Waltercio a uma posição de confronto com o mundo barulhento da arte contemporânea. O crítico Paulo Sérgio Duarte observou que o artista pagou um preço alto por essa rejeição ao espetáculo. Segundo ele, “não há drama ou comédia nesse trabalho, não há formas importadas da ‘alta’ ou da ‘baixa’ cultura”. Quando se torna evidente, a referência histórica se encontra transformada em elemento estrutural do trabalho”, conclui Duarte.

Entre outros objetos, é o caso do Livro Velázquez e das listas de nomes de artistas acoplados às esculturas, segundo o crítico, que aproxima a arte de Waltercio à tradição chinesa por incorporar o vazio, a ausência, como na escultura Rodin/Brancusi (1997), pequena peça em acrílico moldada com buracos no lugar do que deveriam ser dois volumes esculpidos.

Rodin e Brancusi, até mesmo por Waltercio ser escultor, são nomes evocados com frequência em sua trajetória, como comprova uma minúscula peça na mostra do IAC, que sintetiza sua visão – Rodin como um artista preso à tradição e seu ex-assistente Brancusi (apenas por um mês, em 1907) como um visionário que libertou a escultura de sua base. A exposição traz ainda maquetes, muitos cadernos de desenhos, esboços para histórias em quadrinhos (a primeira feita em 1991), projetos de esculturas e objetos que o artista chama de “transitivos”. 

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